Eccard Freiherr von Gablenz

Eccard Freiherr von Gablenz

O oficial alemão que deu tanto trabalho aos americanos e brasileiros nos combates pelos montes Belvedere e Castello provinha de uma aristocrática linhagem de Junkers.  Mas, do ponto de vista das leis raciais nazistas, a própria existência de von Gablenz no rol da alta oficialidade alemã implicava em uma incoerência: o general era o que durante o Terceiro Reich se chamava, de forma depreciativa, de Mischling: ele tinha um quarto de ancestralidade judaica. Essa origem racial que os nazistas consideravam uma mácula foi compensada pela profunda dedicação do general ao esforço de guerra alemão[1]. Não foi o único caso na família, pois Eccard tinha um irmão que era general da Luftwaffe.

Von Gablenz era veterano da Primeira Guerra Mundial, durante a qual foi condecorado com as Cruzes de Ferro de primeira e segunda classes.

A missão de liderar a 232ª D.I. não era novidade para von Gablenz quando assumiu seu último comando em 1944. Ele fazia parte do seleto grupo de oficiais veteranos da guerra de 14-18 que havia alcançado o generalato antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Comandante militar da cidade de Praga por um breve período antes da invasão da Polônia, von Gablenz esteve presente na primeira leva de assalto em setembro de 1939, comandando o Kampfgruppe Netze e chefiando a 32ª Divisão de Infantaria, embora tenha se queixado das acusações que o Tribunal de Nuremberg lhe imputou referentes ao preparo de uma guerra de agressão. Passando ao comando da 7ª Divisão de Infantaria, von Gablenz participou em 1940 na primeira onda dos ataques na frente ocidental, liderando suas tropas pelo norte da Holanda, Bélgica e França. Concentrando sua divisão na costa norte da França, envolveu-se na preparação da Operação Leão Marinho, a frustrada invasão da Grã-Bretanha pelo Canal da Mancha. Considerado um comandante de divisão competente, segundo os planos da Leão Marinho, von Gablenz e seus soldados estariam incluídos na primeira onda de invasão através do canal[2].

No ano seguinte, von Gablenz participou da invasão da Rússia ainda como comandante da 7ª Divisão de Infantaria, tendo combatido contra tropas siberianas no setor de Moscou. Fato interessante da composição desta divisão é que ela continha um regimento da Légion des Volontaires Français, integrado por colaboracionistas e membros dos partidos fascistas franceses que ao final da guerra se uniriam à Milice, a força paramilitar anti-guerrilha do governo de Vichy, para formar a divisão Charlemagne da Waffen-SS. Em 16 de dezembro de 1941, von Gablenz congratulou o historiador militar Coronel Roger Labonne, que dublava como comandante da LFV, por seus feitos “na luta contra o bolchevismo, por uma Europa nova e feliz”[3]. Ao contrário do que o próprio general pretendeu sustentar depois da guerra, ele não era desvinculado do nazismo nem um comandante de linha de frente sem suas próprias convicções ideológicas.

A carreira de von Gablenz parecia estar se direcionando ao alto comando. A 23 de dezembro de 1941, auge do inverno russo, o general foi elevado ao comando do XVII Corpo de Exército, do qual foi destituído no dia 13 janeiro de 1942, após ter contrariado ordens do Führer e concedido permissão de retirada a tropas isoladas na frente de combate. Deste ponto em diante, a confiança que o OKW depositava em von Gablenz começou a se dissipar, motivando recomendações para que o general não mais fosse indicado para altos comandos[4].

Depois de um período em um sanatório, von Gablenz dirigiu a organização de uma nova divisão, a 384ª de Infantaria, que comandou na investida alemã por Karkhov e a frente do rio Don em 1942. Atacando na direção de Stalingrado, von Gablenz esteve sitiado no bolsão da cidade até ser rapidamente evacuado por via aérea em dezembro, algumas semanas antes da catástrofe do VI Exército sob o comando do General Friedrich Paulus.

De janeiro a março de 1943, von Gablenz continuou comandando tropas da Força Tarefa 384ª (Kampfgruppe 384. Div.) em combate no setor do rio Don. Mas ao proferir publicamente uma avaliação pessimista da situação de sua unidade, foi rapidamente despachado para casa. Novo período de hospitalização, e novas indicações para comandos superiores foram suspensas por tempo indeterminado. Considerado insubordinado, o general estava fadado a se contentar com o comando em nível tático de divisões de infantaria, apesar de sua experiência ter sido reconhecida com a Cruz de Cavaleiro, que lhe foi conferida em 1940 pela participação na campanha da França. Von Gablenz passou o resto de 1943 até março de 1944 organizando a 404ª Divisão de Reserva em Dresden. Neste mês, von Gablenz foi novamente encarregado de iniciar a organização de mais uma divisão de infantaria, a ser preparada na 27ª onda de criação de tropas[5].

Em setembro de 1944, von Gablenz e seus homens partiram para a Itália. Foram inicialmente empenhados na defesa costeira da região de Gênova, passando depois a guarnecer o setor dos Apeninos ao sul da cidade de Módena, paralelo à Rota 64. Depois deste deslocamento, por meses seguidos os soldados da 232ª teriam os brasileiros entre seus principais adversários. A extensão do front designada para a divisão alemã era bastante longa, abrangindo aproximadamente 70 quilômetros, compreendidos no setor defensivo a cargo do XIV Exército, sob o comando do General der Artillerie Ziegler, que foi ferido em novembro e substituído pelo General Curt Jahn.

 

A 232. Infanterie-Division na Itália

 

De início, o Regimento 1044 (Oberstleutnant Erich Winkelmann) ocupou-se da frente do Monte Cimone; o 232º Batalhão de Fuzileiros (Hauptmann Wilhelm Mass) instalou-se no Monte Cimone; o Regimento 1043 (Oberst Grosser) estabeleceu suas posições no setor do Monte Belvedere (que incluía o Monte Castello) e o Regimento 1045 (Oberst Kurt Stöckel, ganhador da Cruz Germânica em Ouro) defendia a área de Castel D’Aiano, que coincidia com as posições brasileiras de Africo, Torre di Nerone, Soprassasso, Boscaccio e Pietra Colora, situadas no setor leste da frente da 1ª DIE.

As avassaladoras baixas da Wehrmacht incorreram em uma diminuição abismal da quantidade de combatentes disponíveis para recompor divisões aniquiladas na frente oriental e constituir novas unidades. A 232ª Divisão de Infantaria “Drei Zack” (a Divisão Tridente) foi bastante afetada pela deficiência de efetivos, que já havia sido evidenciada pela reestruturação das divisões de infantaria “tipo 43”[6].

De acordo com a nova organização, os regimentos de granadeiros, que antes contavam com três batalhões, passaram a ter apenas dois, diminuição que se procurou compensar com a introdução de armas melhores e mais eficazes e com um batalhão adicional de fuzileiros, utilizado em situações de emergência em setores mais periclitantes. Nos anos finais da guerra, nem sempre era possível alocar às divisões recém criadas o armamento estabelecido nas tabelas de organização, mas ao menos, a 232ª DI não sofreu com este problema: a divisão foi equipada com armamento novo em folha, buscado nas fábricas por comandos especiais de homens[7].

Uma desvantagem elementar afetava o Exército Alemão de forma geral: o número de viaturas motorizadas previsto para as unidades de infantaria permaneceu baixo em comparação com a quantidade de caminhões de tração e transporte existentes nas forças aliadas, prejudicando a mobilidade, demandando cuidados com os cavalos utilizados para rebocar canhões e colunas de intendência e exigindo grandes esforços físicos dos soldados no manejo das peças de artilharia. Tal carência de viaturas na Wehrmacht não se originava da redução da capacidade industrial alemã causada pelos bombardeios Aliados, mas do mau planejamento pré-guerra: a excelência tática da Wehrmacht não foi equiparada por pensamento estratégico capaz de entender que o próximo conflito mundial demandaria um grau de utilização de veículos motorizados e combustível que a Alemanha simplesmente não tinha condições de sustentar[8]. Não pode ser ignorado o fato de que tais deficiências eram prejudiciais para os combates de movimento, e, na Itália, a guerra era tipificada por sua situação estacionária. A falta de mobilidade alemã não consistia fator tão grave para as divisões encarregadas de defender posições no alto de montanhas.

Em função de uma má interpretação a respeito da informação sobre a presença de “estrangeiros” na Wehrmacht, permaneceu no Brasil a controvérsia relativa às origens nacionais de muitos soldados “alemães” que combatiam desde os anos iniciais da guerra: a própria 232ª DI contava com um número de “estrangeiros” em suas fileiras, muitos dos quais eram Volksdeutsche, homens de etnia germânica que foram incorporados ou se ofereceram como voluntários depois que seus países foram ocupados. As listas de prisioneiros capturados pela FEB muitas vezes citam as nacionalidades polonesa e francesa (geralmente para soldados provenientes da Alsácia), mas os seus nomes são invariavelmente de origem germânica, ao menos para os homens servindo nas unidades de combate[9].

As companhias de serviços ligados à retaguarda das grandes unidades alemãs realmente continham cidadãos de outras etnias, geralmente voluntários na Wehrmacht que tentavam escapar da fome ou da ocupação soviética. As listas de prisioneiros capturados pela guerrilha italiana elencam russos, iugoslavos, poloneses e tchecos entre as várias nacionalidades servindo sob o uniforme alemão. Estes homens executavam serviços nas cozinhas e unidades de transporte, liberando os alemães natos e os combatentes de etnia alemã para servirem no front[10].

Junto a essas medidas, procedeu-se com a redução dos efetivos das seções administrativas e logísticas nas divisões alemãs. Medidas extremas foram tomadas, como a criação de batalhões especiais de homens com problemas gástricos, já que o preparo de ração para quem tinha limitações alimentares era um sério problema. Agrupar estes homens nas mesmas unidades facilitava as tarefas logísticas.[11]

Uma das medidas para tentar restituir o moral dos soldados alemães foi a retomada do termo “granadeiro”, de importantes conotações históricas, para designar os soldados regulares de infantaria. Os soldados de infantaria e artilharia que compunham a 232ª provinham de todas as regiões da Alemanha, e agora iriam combater na frente italiana colocando em prática a experiência de guerra na Rússia, compartilhada por 90% do efetivo da unidade[12]. Esses homens tinham passado uma média de 2,5 anos lutando na frente oriental. Em 20 de julho de 1944, a totalidade de 9.000 combatentes que perfazia a divisão completa foi finalmente alcançada com a chegada de um contingente de soldados jovens recém incorporados ao exército. Experientes e confiáveis, os veteranos da Rússia rapidamente ganharam a admiração dos 10% restantes de recrutas com idades entre os 18 ou 19 anos, que logo que se enquadraram entre os companheiros mais velhos[13].

Von Gablenz tinha perfeita noção da situação da Alemanha em 1944. Procurou incutir nos seus homens o sentimento de validade daquela etapa final da luta em condições difíceis, o que coincidiu, segundo as memórias do veterano Heinrich Boucsein, com a disposição que os soldados mais experimentados tinham para o combate. O general alemão estava consciente das restrições logísticas de sua unidade, e, para sua preparação, baseou-se no que dispunha de melhor: o material humano. Assim, von Gablenz privilegiou a instrução dos atiradores de escol e da ação de pequenas unidades[14].

As duas especialidades seriam primordiais para a guerra de montanha: como os veteranos da FEB testemunham, fossem em ataques ou no dia-a-dia das posições de linha de frente, os snipers alemães sempre se faziam ativos, caçando líderes e abatendo o soldado que por descuido expusesse o capacete acima do parapeito de sua trincheira. “Se quisessem, arrancavam a orelha de qualquer um, numa boa distância”, lembrou o soldado do Regimento Sampaio José Colomera, a respeito dos atiradores de escol alemães[15].

Os pequenos grupos de soldados da 232ª também tinham sido treinados para atuar de forma eficaz na manutenção das linhas fortificadas que seriam encarregados de defender, tanto no planejamento de planos de fogos cruzados, como nas ações ofensivas localizadas, desferidas para retomar terreno perdido para o inimigo[16]. A composição da divisão alemã que defendia o Monte Castello contava assim como homens experientes e treinados para as missões de defesa de linhas fortificadas, contrastando de forma contundente com a falta de treinamento para a guerra de montanha que caracterizava a FEB e várias outras unidades Aliadas. Essas vantagens táticas de que dispunham os alemães foram determinantes para o sucesso em repelir os ataques de fins de 1944.

Antes dos primeiros homens da 232ª Infanterie-Division chegarem a Gaggio Montano, os soldados alemães que ocupavam os morros acima da Rota 64 pertenciam à 94ª Divisão de Infantaria. Anteriormente, unidades da 42ª Divisão Jäger e da 65ª de Infantaria haviam passado pela região. A 94ª abandonou seu setor esquerdo do front com tanta pressa que entregou aos americanos as localidades de Abetaia e Bombiana – a última teria um papel importante nos ataques ao Monte Castello como base de partida do 11º Regimento de Infantaria. No dia 10 de outubro de 1944, o 1043. Grenadier-Regiment defendia a frente desde o Monte Belvedere até o vilarejo de Pietra Colora a oeste, que durante o inverno seria ponto de inúmeros choques de patrulhas brasileiras e alemãs[17].

O trabalho da Organização Todt não havia sido concluído, e o término dos abrigos e fortificações das elevações precisou ser arrematado pelos próprios soldados alemães. Quando o Monte Castello foi conquistado em fevereiro de 1945, uma cópia da planta dos abrigos de tropa foi capturada junto com um memorando endereçado à 1ª Cia. do 1044. Grenadier-Regiment, versando sobre a necessidade de construir abrigos que suportassem o rigor do frio que estava para chegar: “abrigos provisórios já estão prontos em sua maior parte. Agora temos de tratar de construir abrigos confortáveis porque o inverno está à porta. A fim de que haja um tipo uniforme de abrigos, anexo segue um desenho do plano principal e da madeira necessária para a construção dos mesmos. Também os soldados que ainda estão alojados em casas devem começar imediatamente a construção de abrigos, já que se pode contar com a possibilidade dessas casas serem destruídas a qualquer momento por ataques aéreos”[18].

[1] Rigg, B.M. Os soldados judeus de Hitler.

[2] Eccard Freiherr von Gablenz , Werdengang in Kriege von 1939-1945, sem data.

[3] Livreto, Légion des Volontaires Français contre le bolchevisme.

[4] Von Gablenz, Werdengang, op. cit.

[5] Von Gablenz , op. cit.

[6] Buchner, A., The German Infantry Handbook 1939-1945.

[7] Boucsein, op. cit.

[8] Glantz, D.; House, J. Confronto de Titãs. São Paulo: C&R Editoria, 2009.

[9] Ficha de interrogatório de prisioneiro.

[10] “Elenco nominativo prigioneiri catturati dai partigiani”. A lista contém três franceses de origem alemã, 83 russos, três iugoslavos, um romeno, dois tchecos, um sudeto, 47 poloneses, 17 austríacos, 120 alemães e doze italianos.

[11] U.S. War Department, Handbook on German Military Forces. Baton Rouge: LSU press, 1990.

[12] Além dos “granadeiros”, os “caçadores”, “fuzileiros” e “caçadores de montanha”, entre outros, serviam como soldados de infantaria na Wehrmacht.

[13] Maximiano, 2010, op. cit.

[14] Além dos esparsos documentos em variados arquivos, há poucas fontes sobre a 232. Infanterie-Division que sobreviveram à guerra. Um relato fundamental sobre os combates da divisão foi publicado no Brasil: Heinrich Boucsein, op. cit..

[15] Citado em Pacheco, M. Odisséia e vitória da FEB. Bauru: Indústria Gráfica Marcel, 1983.

[16] Boucsein, op. cit.

[17] Idem.

[18] Tradução do documento alemão distribuída pelo S/2 do Regimento Sampaio, PC em Cá di Toschi, 26 de fevereiro de 1945.

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