CONTRA-ATAQUE ALEMÃO!

Do livro “Irmãos de Armas”.

CONTRA-ATAQUE ALEMÃO!

 

29 de outubro de 1944. A coluna de caminhões Ford e GMC fez alto às portas da cidade medieval de Barga, desembarcando a infantaria do I Batalhão. Em longa coluna por um, as companhias marcharam pela cidade adentro.

Ao I Batalhão fora confiada a missão de dar continuidade ao esforço do Destacamento FEB para, após a conquista de Barga pelo III Batalhão do regimento, aumentar a pressão na direção da cidade de Castelnuovo di Garfagnana, importante centro nervoso da defesa alemã na Linha Gótica.

Barga, de construção fortificada, é inteiramente circundada por muros de pedra, material usado também na edificação dos seculares casarões da localidade. Ferdinando Palermo, ao conversar com os italianos em Barga, recebeu um recado que os alemães desejavam passar aos brasileiros. “Os tedescos disseram que no inverno estarão de volta aqui!” –  disse um camponês.

No portal da entrada principal de Barga cruzaram com elementos do III Batalhão que tinham ocupado a cidade. Eram soldados do pelotão do tenente Túlio Campello de Souza, um dos companheiros da república em Taubaté, e dos pelotões dos tenentes Gérson Machado Pires e Nestor Corbiziano.

Ainda sob pesada chuva, no interior intrincado da cidadela, a 1a companhia alcançou o posto de comando da 8a, pertencente ao III Batalhão do regimento. O comandante da 1a Companhia inquiriu o capitão Los Reis, da 8a, sobre as condições do front. Los Reis respondeu com um misto de rispidez e indiferença. Não se dava com o capitão Tavares. A tropa prosseguiu na direção da base de partida do ataque, em Sommocolonia.

Cada avanço ou operação de ataque do regimento era coordenado por ordens gerais de operações, emanadas do IV Corpo de Exército Americano, ao qual o Destacamento FEB estava subordinado.

A O.G.O. número 15 determinava em primeira instância a conquista de Lama di Sopra. Segundo a O.G.O. 15, o 6o R.I. recebera a missão “de conquistar a linha Calomini – C. Casela – San Quirico – Cole – Cota 906 – Lama di Sopra e cobrir-se fortemente na direção Leste. Este ataque deveria ser feito em uma frente de 4 kms. 500 ms. continuando o R.I. a manter sua frente de 12 kms.”

Passando por Barga, os homens da 1a Companhia passaram a noite em Catagnana. Durante todo o percurso, foram visados pela artilharia alemã. Marcha cansativa e perigosa. Recebem notícia de que haveria dificuldade no suprimento de munição. Uma ponte estava rompida, o trajeto não permitia o tráfego de veículos. O jeito era carregar o que se podia nas costas, e contar com o remuniciamento dos soldados alpinos italianos, que com suas mulas de carga, auxiliavam os aliados.

Os sargentos Guttemberg Melo, Caetano Tanese e Francisco Pereira da Silva, comandantes dos grupos de combate do 1o Pelotão, comunicaram ao tenente que os três GC estavam prontos para partir. Munição, armas individuais e os fuzis-metralhadoras estavam em ordem. Poderiam começar o avanço.

A quantidade de equipamento e munição que um soldado é capaz de transportar num ataque é suficiente apenas para um breve combate e manutenção do objetivo a ser conquistado. Além do peso de sua arma, capacete de aço, fardamento, cantil, munição e ração de combate, o soldado de infantaria tem que vencer encostas de elevações lamacentas e escorregadias. Ao mesmo tempo deve se preocupar com o inimigo à espreita, e se jogar apressadamente ao chão para escapar dos tiros de inquietação. Alguns soldados sofriam ainda mais com o material que precisavam carregar: eram os telefonistas e homens do pelotão de petrechos, transportando armas que, desmontadas, pesavam até 20kg, além dos cerca de 30kg do equipamento normal de cada infante. Armando Ferreira explicou a dificuldade de transportar os rojões da bazuca do pelotão: “é uma arma que você não pode levar muita munição. Você tem que procurar um ponto crítico para usá-la, porque são umas granadas um pouco compridas, e pesam um pouco”.

Os municiadores das armas automáticas e morteiros traziam pesados cunhetes de aço com granadas e cintas de munição para metralhadora ponto 30 e carregadores para os pesados fuzis Browning.

Pouco se conversava. Extenuados pela marcha, às 04:00 da manhã os atacantes começaram a galgar as íngremes escarpas que levam em direção ao vilarejo de Sommocolonia, a 2,5 km de distância de Barga. Uma chuva forte ininterrupta caiu por toda a noite e parte do dia seguinte. Espesso nevoeiro dificultava a identificação das vias de acesso aos objetivos.

Pela primeira vez, o 6o Regimento de Infantaria tinha soldados da República Social Italiana pela frente. Em setembro de 1943, o Rei da Itália havia assinado um armistício em separado com os Aliados. Parte da Itália, no entanto, permaneceu fiel a Mussolini e os alemães. Mussolini estabeleceu sua nova sede do governo fascista republicano na cidade de Saló. Os fascistas italianos tiveram que reorganizar seu exército, formando quatro divisões que foram treinadas na Alemanha, além de ainda poderem contar com porção significativa das forças armadas italianas que não tinham aceitado o armistício. A maior parte dos soldados destas novas divisões era de jovens conscritos, nascidos nos anos de 1924-25, mas um número relevante de sargentos e oficiais haviam feito as campanhas da Abissínia, África e Rússia. Acompanhando os soldados italianos do novo exército de Mussolini estavam sargentos alemães experimentados em combates, ajudando a finalizar a instrução ainda na linha de frente. As novas divisões italianas eram a Monterosa, de soldados especializados em guerra de montanha; a Divisão San Marco, de fuzileiros navais; a Divisão Littorio, de Granadeiros, e a Divisão Itália, de Bersaglieri, uma espécie de infantaria de elite tradicional das formações militares italianas. De todas, a Monterosa era a mais numerosa: tinha 20.600 homens.

Guarnecendo as posições circunvizinhas a Castelnuovo di Garfagnana, estava parte da Monterosa (Batalhão Brescia), junto a um batalhão da divisão de fuzileiros navais, que haviam chegado à região entre os dias 26 e 28 de outubro. A tropa que defendia as posições atacadas pelos brasileiros pertencia ao Batalhão Aosta da Monterosa. No total, eram 270 homens guarnecendo 4km de linha de frente. Os postos avançados dos italianos estavam diluídos pela extensão da linha de defesa. Isso facilitou a infiltração e o cerco das posições da Monterosa.

Os soldados italianos haviam substituído uma divisão de infantaria ligeira alemã. O grosso dos alemães começava a se deslocar para o setor de Bolonha, mas alguns elementos permaneceram junto aos italianos para facilitar o reconhecimento do terreno.

A cidade de Barga tinha sido conquistada pelo III Batalhão do 6o R.I. nos dias anteriores. O efetivo inimigo era relativamente desconhecido na região, e foi necessário empreender patrulhas para melhorar as informações disponíveis sobre as tropas oponentes no setor. Artemiro Botossi, que tinha a função de esclarecedor de seu grupo de combate, foi escalado para uma das missões de patrulha no setor.

Na noite do dia 29, Botossi partiria sozinho das posições do pelotão para reconhecer as posições inimigas. Como a missão se tratava de observação, um número grande de homens em deslocamento poderia atrair a atenção do inimigo pondo mais vidas ainda em risco.

Quando Botossi preparava-se para deixar as linhas brasileiras, o sargento Pontes se aproximou, tomando-lhe o fuzil Garand, apoiando a arma contra uma árvore. “Botossi, deixe o Garand encostado. Vai só com granada. Assim se pegarem você, não matam.”

Acatando a estranha ordem do sargento Pontes, Botossi progrediu pela terra de ninguém, mas sem perceber atravessou a linha principal de resistência inimiga. Se deu conta de um movimento às suas costas, e voltando-se por entre os arbustos, viu um soldado italiano sair de um abrigo para render um companheiro em seu posto avançado. Assustado pela proximidade do inimigo, Botossi pisou num galho de árvore ao tentar voltar velozmente para a segurança das linhas brasileiras.

Os italianos e alemães abriram fogo em cima do soldado.

Ao escutar as rajadas, das posições do 1o Pelotão, seus companheiros pensaram: “o Botossi já foi.”

Mas o esclarecedor conseguiu se abrigar nas curvas de nível feitas na encosta do morro pelos agricultores italianos. Como os postos avançados inimigos eram distanciados, Botossi conseguiu retornar, trazendo informações sobre a disposição inimiga.

Naquele mesmo dia, uma outra patrulha do 6o Regimento de Infantaria havia saído em busca de informações sobre as forças inimigas na região de Treppignana. Vasculhando um bosque de castanheiros, a patrulha brasileira conseguiu cercar um tenente e um sargento italianos do batalhão Intra da Monterosa, que cumpriam missão de ligação. Os italianos, confundindo os brasileiros com alemães, tentaram explicar que estava ocorrendo um engano. Mas a resposta em ítalo-português da patrulha encerrou todas as dúvidas. O tenente italiano disse que outra patrulha da Monterosa se aproximava, e o sargento brasileiro destacou quatro homens para averiguar. Com os dois prisioneiros sendo guardados por quatro brasileiros apenas, o tenente italiano empurrou o soldado que o vigiava, conseguindo fugir. O sargento também tentou escapar dos guardas, mas recebeu uma coronhada que o pôs desacordado. Só iria despertar num hospital da retaguarda. Defronte a outra das companhias do 6o R.I., mais quatro prisioneiros italianos se entregaram. O comando já dispunha assim de algumas informações sobre o dispositivo inimigo no setor.

Do Posto de Comando partiu a ordem de ataque para os três pelotões da 1a Companhia que seriam empregados, emitida no dia 29 de outubro:

 

“A 1a Cia. vai atacar no dia 30 as 07,00 h. as elevações, cota 906, ao SW de La Rochette.

Dispositivo: 1o Pel. à direita.

2o Pel. à esquerda.

Petrecho leve e petrecho pesado: apoiando de cotas à frente de Sommocolonia.”

 

O apoio de artilharia ficou a cargo da Companhia de Obuses do 6o Regimento, 16 peças de artilharia pesada de uma bateria do Grupo de Obuses de 105mm brasileiro, e dos morteiros de 81mm da CPP I. A base de partida seriam as encostas a oeste de Sommocolonia. A ligação com o Posto de Comando da companhia seria feita com os “hand talks” até onde fosse possível, e depois por telefone e mensageiros. Naquela época, os rádios de combate eram ainda incipientes, e a comunicação era dificultada pelos acidentes do terreno.

Na base de partida, o coronel chefe do Estado-maior da Infantaria Divisionária, intempestivo como o general que assessorava, esbravejou com os tenentes da 1a Companhia. “Vocês ainda estão aqui? Nós estamos atrasados! Vocês estão com medo de meia dúzia de vagabundos. A pau eles saem de lá!”

Era fácil insinuar que os combatentes sentiam medo, proferindo bravatas da segurança de um posto de comando. Na linha de frente, quem não tinha “paura”? Os pelotões estavam sujeitos a baixas e contra-ataque. Confrontariam um inimigo de efetivo e capacidade combativa desconhecidos. O medo na guerra era uma reação normal e freqüente, advindo do instinto de preservação e bom senso, mas não era sinônimo de ausência de coragem. Seria presunçoso supor que a admissão da existência de tal sentimento fosse motivo de vergonha. Quem desejava permanecer vivo sempre sentia medo e agia de forma prudente em situações de combate. “Tinha que se controlar”, recordou Botossi. “O medo também mata.”

Lembrando da orientação passada aos fuzileiros pouco antes da entrada em linha, “bravura não é loucura.”

O desrespeito com o bem estar dos soldados foi adicional ao qualificar os defensores da região como “meia dúzia de vagabundos”. Decerto, menosprezar os inimigos de dentro de um confortável abrigo na retaguarda era a noção de conduta em comando mais apropriada na concepção daquele oficial.

A falta de tato dos responsáveis pela operação não se limitaria à cômoda atitude do coronel. Enviaram o I Batalhão para a conquista da cadeia de elevações sem um escalão de apoio e sem uma linha constante de remuniciamento. Nem mesmo o comboio da comida foi mandado para as posições nas cristas. Foi uma ação pautada pelo planejamento inconseqüente, e a sensação era de que os oficiais superiores estavam mais preocupados com seu prestígio pessoal e em fazer sala para os observadores recém chegados do Brasil do que com a segurança dos homens que comandavam.

Os mais elementares preceitos de condução de um ataque foram descurados pelos responsáveis pelo planejamento. Agiram como se estivessem conduzindo uma manobra em Gericinó. Não providenciaram a substituição da tropa atacante, que deveria ser ultrapassada por um outro batalhão do 6o Regimento para dar prosseguimento ao avanço na direção da cidade de Castelnuovo di Garfagnana. Era óbvio que um batalhão imediatamente após ser empregado no ataque estava extenuado por um dia inteiro de marcha morro acima, e tendo combatido, não seria capaz de sustentar as posições e manter o esforço do avanço na direção de Castelnuvo.

Pelo contrário, o I Batalhão foi praticamente abandonado à própria sorte.

Da base de partida, o 1o e 2o Pelotões de fuzileiros, junto ao Pelotão de Petrechos da 1a Companhia mergulharam na ribanceira que os conduziria até seu objetivo. Logo no começo, o caminho era uma acentuada queda de 300 metros atravessando o profundo vale por entre uma floresta espessa. Depois, mais 700 metros de subida até chegar à cota 906. Sommocolonia era base de partida também para a 2a Companhia, que executou um longo desbordamento da crista para atingir a localidade de Lama di Sotto.

Chuva e frio se abateram sobre o 1o Pelotão enquanto galgavam penosamente as escarpas. Ao se aproximarem do objetivo, a tensão era total. Sabiam com certeza que encontrariam o inimigo pela frente. Mas ignoravam quase totalmente seu efetivo, armamento e disposição para o combate. Nas proximidades da crista, foi dada ordem de abandonar os caminhos mais fáceis que levavam até o ponto culminante da elevação.

Embrenhados no mato para evitar as trilhas existentes na encosta da montanha que certamente estariam minadas e enfiadas pelas metralhadoras inimigas, os três grupos avançavam. “Você ia sempre pelo caminho mais difícil, porque nos caminhos mais fáceis, você podia encontrar minas”, lembrou Ferdinando Palermo. A vegetação era de pequeno porte mas cerrada, o que oferecia boa cobertura.

Grupos de combate em posição, os homens do 1o Pelotão se acercaram do cume da cota 906.

Pouco antes do pelotão ganhar a crista da elevação, gritos de alerta foram ouvidos pelos soldados que estavam mais à frente do dispositivo de ataque. O soldado João Antônio da Silva gritava “alto!” apontando seu fuzil para um ponto entre alguns arbustos. A movimentação adiante causou expectativa nos integrantes do pelotão. O sargento Tanese e os soldados Nelson Wood (conhecido como “Sebinho”) e Gratagliano haviam surpreendido um ninho de metralhadora dos italianos. Dois soldados alpinos da Divisão Monterosa se projetaram de pé em meio aos arbustos e castanheiros, com as mãos para cima e gritando: “cameratti! Cameratti!”*. Guarneciam uma metralhadora pesada. Com folhagens camuflando seus capacetes de aço enterrados nas cabeças, eram dois soldados jovens e de físico avantajado, mas a sua reação à captura foi próxima ao pavor. Os italianos tremiam e pediam para não serem mortos, comportamento comum nos prisioneiros feitos em combate. A perspectiva do tratamento após captura causava terror a qualquer combatente. “Os italianos estavam a meio metro das nossas caras,” lembrou Tanese.

Aproveitando o estado de ânimo combalido causado pelo aprisionamento, Gonçalves inquiriu os prisioneiros em italiano.

“Quantos são?”

“Somos em sete na posição. Os outros estão próximos e não devem demorar.”

Os grupos de combate continuaram subindo a montanha, caminhando mais 50 metros até atingirem o cume.

De fato, poucos instantes após haverem feito os dois primeiros prisioneiros, cinco outros soldados inimigos são surpreendidos em outra posição, uma vez que pensavam ainda estar em segurança com a cota em mãos de seus camaradas.

Novamente, os soldados italianos mostravam-se apavorados. Um dos prisioneiros chegou a implorar: “pelo amor de Deus! Não me mate! Quero voltar para minha mãe!” Eram garotos de 18 ou 19 anos que Mussolini tinha arrancado de casa, para morrerem por uma causa perdida em uma guerra que estertorava.

Armas, munição e equipamento caíram em poder dos brasileiros. O tenente Gonçalves se apoderou de uma bela pistola alemã Walther P-38, que passaria a usar na cintura até o fim da guerra.

Vicente Gratagliano, um dos homens que assaltou o abrigo dos adversários, lembra-se ter invadido a posição inimiga com seus camaradas e caído em cima do grupo de inimigos, pegos repentinamente enquanto se entretinham num jogo de cartas, resultado da bem empreendida infiltração do 1o Pelotão, que fez com que os italianos acreditassem que os brasileiros haviam sido guiados por gente do local.

Mais cinco prisioneiros caíram em mãos do pelotão, incluindo dois graduados alemães da companhia que auxiliava a Monterosa. Do lado esquerdo da cota 906, o 2o Pelotão sob o comando do tenente Halbout Carrão assaltava um posto avançado inimigo, matando três dos defensores e se aferrando ao terreno. Carrão registrou os acontecimentos em seu diário:

“O meu Pelotão chegou ao seu objetivo às 11:30 horas fazendo 10 prisioneiros alpinos italianos e matando outros 3 fascistas. Mandei pedir munição e reforço.”

A 906 se encontrava finalmente ocupada, sem que houvesse baixas no 1o Pelotão. Já o tenente Carrão perdera um homem ferido. De acordo com seu diário, “até às 17:00 horas a minha posição não era boa. Com um homem gravemente ferido na cabeça (Sd 4539 – Alcebíades). Sob muita chuva e sem reforço. Por isso resolvi retrair mais para baixo da elevação, onde passei a noite numa casa, completamente guardado por uma seção de metralhadoras da CPP I., que chegou finalmente às 17:30 horas. A munição ficou prometida para o dia seguinte…”

Nos arredores da cota 906, as outras companhias do I Batalhão também assenhoravam-se dos objetivos assinalados. Pelas 12 horas do dia 30, parecia que a operação terminaria sem maiores contratempos.

Um sargento italiano, comandante de uma seção de morteiros relatou a maneira com que o ataque brasileiro foi desencadeado:

“O Segundo Pelotão foi pego de surpresa, ao amanhecer. Não pôde oferecer muita resistência: escutamos disparos, ordens gritadas, e depois, o silêncio.”

Na tarde do dia 30, as outras duas companhias davam prosseguimento à segunda fase da operação, partindo horas depois em relação à 1a e 2a Companhias.

No flanco esquerdo da crista de elevações, os pelotões da 3a Companhia – “A Melhor do Mundo”, segundo os soldados que nela serviam – iniciaram a progressão ao redor das 15 horas na direção de Colle e Battosi. Secundados por mais dois pelotões da 7a Companhia, dirigiram-se para o Monte San Quirico. Em vez de permanecerem na base de partida, o capitão Aldenor, da 3a Companhia, e Atratino, da CPP I, participaram no ataque juntos a seus comandados.

O avanço do I Batalhão do 6o R.I., com o apoio da 7a companhia do regimento, foi avassalador, levando os soldados alpinos italianos que defendiam a cota 906 e adjacências de roldão. Atacando simultaneamente, as duas companhias do regimento procederam a infiltração de forma perfeita, surpreendendo vários postos avançados italianos. A avaliação emitida pelos combatentes da Monterosa a respeito da ação brasileira julgou erroneamente que todo o regimento tinha participado do ataque, pela forma eficaz e arrojada com que o I Batalhão se portou na conquista da linha principal de resistência inimiga.

Durante o avanço da 3a Companhia, o pelotão do centro foi alvejado por homens de um pelotão do Batalhão Aosta. Tiros de armas automáticas dominaram o cenário do combate. Ao ouvir a fuzilaria, um grupo comandado por um tenente italiano do 1o Pelotão da 1a Companhia do Batalhão Aosta,  organizou-se rapidamente para ir ao auxílio de seus camaradas que resistiam ao ataque da 3a Companhia do 6o R.I. O tenente italiano manejava uma metralhadora de mão, disparando contra os expedicionários até ser fatalmente atingido por um tiro de fuzil. Depois de abaterem o oficial italiano, os homens da 3a e 7a Companhias prosseguiram na direção do Monte San Quirico. Numa manobra de pinça, as duas companhias tomaram as elevações circunvizinhas das mãos dos alpinos italianos, que combateram bem, mas terminaram subjugados. Com mais algumas rajadas trocadas de ambos os lados, outro dos objetivos caía nas mãos dos expedicionários.

O ímpeto do ataque custou 80 baixas à companhia italiana do Batalhão Aosta, entre mortos, feridos e prisioneiros. A linha defensiva inimiga começava a se desarticular, o que de pronto chamou a atenção dos oficiais superiores italianos e alemães encarregados da região.

Apesar do êxito relativamente fácil em atingir o objetivo do ataque, a situação estava longe de se apresentar tranqüila. Havia a necessidade de organizar os pelotões para a defesa das montanhas, pois as chances de um contra-ataque eram bastante iminentes. A progressão do Destacamento FEB havia provocado uma brecha de três quilômetros de profundidade por dois de largura no esquema defensivo italiano.

Enquanto isso, no ponto culminante da cota 906, com os soldados exauridos pelo dispêndio de energia na escalada das íngremes encostas da montanha e elevações que tinham precedido a chegada ao objetivo, ordenou-se aos prisioneiros que cavassem os primeiros abrigos individuais. Ferramentas de sapa foram rapidamente providenciadas e os italianos e um ou dois graduados alemães enquadrados no grupo iniciaram a escavação no solo duro de terra rochosa. Depois foram orientados a retirar os cinturões e permanecerem deitados com as calças abertas, para impedir tentativas de fuga, sendo vigiados por três soldados. Ainda tremiam de medo de serem mortos.

Era comum que os soldados procurassem escapar de todas as formas à tarefa de escavar seus abrigos quando percebiam que não iriam permanecer por muito tempo numa posição. Inúmeras vezes, apenas terminada a escavação de abrigos, o que levava pelo menos uma hora de trabalho muito cansativo e ininterrupto, as unidades no ataque recebiam ordem de proceder, o que fazia o árduo trabalho haver sido executado em vão.

Não foi esse o caso na cota 906. A organização do pelotão, bem enquadrado e protegido num plano de fogos que cobria as vias de acesso às posições, foi preponderante no desenrolar dos eventos subseqüentes. Os homens haviam se colocado pouco abaixo da crista da montanha, no lado que se desdobrava em direção às linhas alemãs e italianas, para dificultar serem atingidos por impactos diretos de artilharia. O pelotão dispunha de um bom campo de tiro. À frente dos abrigos escavados na contra encosta da 906, havia cerca de 50 metros de terreno aberto, mas mesmo assim o campo livre à frente dos fox holes ainda oferecia algumas dobras no terreno para a vantagem dos eventuais atacantes. Espalhadas pela crista, muitos castanheiros e árvores grossas, já desgalhadas pelos bombardeios, ofereciam eventual proteção tanto para uma progressão inimiga como para a defesa da elevação. O terreno era acidentado e cheio de obstáculos, tornando ainda mais dificultosa a manutenção daquelas posições. Com os abrigos principais postados na contra encosta oposta a Sommocolonia e com o abrigo do telefone na outra extremidade do cume da cota 906, no total a frente guarnecida pelo 1o Pelotão se estendia por 500 metros.

Providenciados os primeiros abrigos, os sargentos Piske e Tanese escoltaram os prisioneiros de volta para a base de partida do ataque em Sommocolonia junto a um pequeno grupo de soldados.

Após a consolidação das posições na cota 906, o Pelotão de Petrechos da 1a Companhia deslocou-se para a frente com o tenente Félix, reforçando a organização dos defensores sobre a elevação. A curtos intervalos, o comandante da companhia entrava em contato com os dois tenentes que se encolhiam dentro do raso buraco coberto por duas lonas de barraca. Brincava dizendo piadas pelo telefone, que não chegavam a animar ninguém. Noite adentro, puderam escutar pelo telefone o som de uma sanfona tocada dentro do PC, onde parecia estar em curso uma divertida festa.

Tomadas as medidas de segurança, o pelotão se preparava para a passagem da noite sobre a cota 906. Já nos últimos dias de outubro, o início do inverno apenino se fazia sentir. A noite foi passada em alerta, e poucos homens conseguiram dormir. Fazia um frio “de bode”; expressão que os integrantes do 1o Pelotão acharam adequada para definir a temperatura enfrentada, que era ademais piorada por uma torrencial tempestade de granizo. Em quatro homens num exíguo fox hole onde mal cabiam dois, Félix, Gonçalves, Gomes e Borges passaram a noite batendo os queixos por entre os pedriscos de gelo e acordando sobressaltados de hora em hora. “Era um frio cortante”, recorda-se Borges, “pois o inverno já estava começando.”

A brecha aberta na linha de frente causava preocupação no comando inimigo. A doutrina defensiva alemã estabelecia que uma Linha Principal de Resistência deveria ter postos avançados esparsamente interligados, com pouco número de homens que entretanto deveriam estar supridos de armas anticarro e metralhadoras pesadas em profusão e bem municiadas. O comportamento tático dos alemães consistia em contra-atacar o mais rápido possível quando alguma posição importante na Linha Principal de Resistência era perdida, para não permitir que seus adversários articulassem um sistema defensivo a tempo de rechaçá-los. Para que isso fosse possível, a parte mais forte do efetivo alemão sempre seria encontrada numa linha secundária, disponível para que os oficiais encarregados da defesa os alocassem as missões de reconquista da linha principal.

Os oficiais inimigos responsáveis pelo setor, o general Carloni e o coronel alemão Schirowsky, de pronto providenciaram os preparativos para a tentativa de recuperar o terreno tomado pelos brasileiros.

Chamaram rapidamente de volta ao setor tropa da 42a Divisão Jäger alemã, que se preparava para seguir para o front de Bolonha, assim como tropa da 232a Divisão de Infantaria que era a reserva tática no setor. No planejamento do contra-ataque, informaram  ao Batalhão Brescia da Monterosa, uma  companhia do Batalhão Aosta, um batalhão do 25o Regimento Jäger da 42a Divisão e um batalhão do 1044o Regimento de Granadeiros da 232a Divisão Alemã de Infantaria os objetivos que deveriam ser reconquistados aos brasileiros.

O batalhão da 232a atacaria o saliente do dispositivo brasileiro ao lado do batalhão Brescia da Monterosa, entrando em contato com a 3a e 7a Companhias. O ataque frontal ficaria a cargo do batalhão da 42a Divisão Jäger e de uma companhia de alpinos do batalhão Aosta, engajando a 1a Companhia do 6o R.I. e depois se dirigindo para as posições da 2a. Mesmo tendo em vista o efetivo reduzido dos batalhões alemães, que possuíam entre 300 e 400 homens, o inimigo dispunha de superioridade numérica avassaladora. Esses três batalhões inimigos concentraram seus esforços sobre as quatro companhias brasileiras incompletas, duas das quais tinham deixado um de seus pelotões na base de partida. Do lado brasileiro, havia a vantagem de terem sido acompanhados pela Companhia de Petrechos Pesados do I Batalhão, que se fragmentara no apoio ao escalão de ataque.

Enquanto os oficiais inimigos davam prosseguimento à preparação do contra-ataque, um tenente da 1a Esquadrilha de Ligação e Observação, recém chegado à Itália, estava desejoso para começar a exercer sua função. Os pequenos aviões Piper Cubs, teco-tecos usados para a observação aérea das posições inimigas, ainda não haviam sido fornecidos à esquadrilha brasileira. O único avião disponível para auxiliar na ação era o aparelho pessoal do general Mascarenhas.

No posto de comando na retaguarda, o tenente de artilharia que cumpria a função de observador aéreo inquiriu ao general se seria possível utilizar a aeronave para auxiliar na missão de observação do ataque do I Batalhão. Fosse por egoísmo, ciúmes ou medo de perder o aparelho, o pedido do tenente esbarrou no desdém do comandante da FEB. A resposta do general foi lacônica e categórica:

“Não.”

O tenente observador, no entanto, não desistiu de seu intento, e  conseguiu embarcar em um avião de observação americano. Teve que contar com a generosidade dos aliados em vez da compreensão do comandante da divisão que a essa altura já se completava na Itália, embora os dois outros regimentos até então não houvessem sido empregados na linha de frente.

Sobrevoando a região de Castelnuovo di Garfagnana, o tenente avistou do céu um fremente movimento de viaturas atrás da linha de contato inimiga. Caminhões iam e voltavam para a retaguarda imediata dos alemães e italianos, descarregando tropas em efetivo considerável, fazendo com que o tenente observador comparasse a movimentação a um formigueiro. O tenente chegou mesmo a identificar a tropa pelo binóculo:

“Era tropa alemã com a cor cinza característica de seus uniformes,” conforme escreveu em suas memórias de guerra.

Ao retornar, o tenente observador transmitiu sua observação, alertando o comando brasileiro a respeito do reforço inimigo enviado para o setor. Um dos coronéis que acompanhava a operação retorquiu ao tenente, espezinhando-o:

“Deixe de sonhar acordado.”

Enquanto o comando brasileiro da operação subestimava o alerta do tenente da 1a ELO, toda a artilharia e morteiros inimigos disponíveis no setor aprontavam-se para concentrar seus fogos sobre a tropa brasileira na preparação do contra-ataque.

A operação inimiga foi iniciada às 2:30 da madrugada do dia 31 de outubro.

Na escuridão da noite, o receio dos homens se fez efetivar ao escutarem os disparos na área de Colle-Battosi, setor confiado à 3a Companhia do 6o R.I.

A frente do ataque era demasiado extensa para ser guarnecida por apenas quatro companhias. Com os pelotões brasileiros muito distanciados entre si, dois pelotões da 1a Companhia do Batalhão Aosta, um pelotão do Batalhão Brescia e o batalhão do 1044o Regimento 232a Divisão fizeram frente à 3a Companhia.

Quem primeiro sofreu o impacto do contra-ataque foi o pelotão do tenente Fagundes, que ocupava a localidade de Battosi. O pelotão se retirou depois de breve troca de tiros, por volta das 3 horas da madrugada.

No Monte San Quirico, para a esquerda da área atacada no decurso da madrugada, estavam os pelotões da 7a companhia que acompanharam o I Batalhão. Atacado pelo flanco por tropa italiana, o tenente Rui também decidiu se retirar, e o inimigo procedeu na direção do pelotão do aspirante José Jerônimo de Mesquita, que trocou tiros com os atacantes.

Para a direita do dispositivo brasileiro, ultrapassando as posições da 3a, os atacantes chegariam a se entrechocar com o casarão onde o posto de comando da companhia havia se estabelecido. A esta altura, o flanco esquerdo da linha organizada no ataque se havia desintegrado. Não havia uma clara divisão de onde se localizavam os alemães e italianos e os fuzileiros das 3a e 7a Companhias. Patrulhas de ligação brasileiras se chocavam com elementos inimigos ao percorrer a distância entre um e outro pelotão.

Cercada pela tropa inimiga, depois de violento combate, o restante da 3a companhia retraiu para Albiano.

Na cota 906, o 1o Pelotão e os demais homens da 1a companhia escutaram então a eclosão do estampido de dezenas de armas automáticas misturados a explosões de granadas de mão. Para o lado direito da crista de elevações, a 1a e 2a Companhias estavam melhor posicionadas no terreno. Firmes nas posições, esperavam seu quinhão do contra-ataque.

Os pelotões de fuzileiros da 3a retraíram depois de sobrepujados no combate, restando apenas duas seções de metralhadora do pelotão de petrechos abrigadas dentro de uma casa 300 metros à frente do posto de comando onde se encontravam os oficiais. Dois soldados do petrechos retornaram ao posto de comando para buscar mais instruções. Sem ligação telefônica e com o rádio destruído, os oficiais aconselharam os dois homens a chamarem o pessoal do petrechos de volta para a base de partida. Sob bombardeio e rajadas esporádicos, os dois homens do petrechos da 3a Companhia retornaram para a frente. Preferiram voltar para o lado dos companheiros e avisá-los da retirada do que abandoná-los. Logo mais, todo o grupo seria cercado, tiroteado e capturado.

No decorrer da noite, enquanto verificava a instalação de seus grupos de combate, o aspirante Mesquita tombou morto ao pisar numa mina. O 2o sargento Romano o substituiu no comando do pelotão e sustentou a situação.

O avanço alemão prosseguiu durante a noite. Pelo final da manhã, um grupo se deparou com o posto de comando da 3a Companhia instalado no casarão.

A construção de rochas, com uma das paredes embutida no barranco, facilitou a entrada dos inimigos. Conseguiram invadir a casa subindo na encosta do morro e penetrando pelo telhado. Ocuparam o piso superior da casa onde estavam os oficiais e alguns soldados.

Ao escutar o ruído, o capitão Atratino foi verificar do que se tratava. Sua recepção foi uma rajada de metralhadora que transfixou a parede, disparada do cômodo da casa já dominado pelos alemães. No andar de cima, outros inimigos procuravam alargar uma brecha pelo teto, por onde tentavam jogar granadas de mão, no que conseguiram matar um sargento. O combate foi travado dentro do próprio posto de comando da 3a companhia!

Mas os capitães Aldenor, Atratino e o tenente Pinto Duarte junto a um pequeno grupo de comandados continuaram sitiados dentro do casarão. Vendo-se sem possibilidade de prosseguir combatendo, procederam na evacuação do posto de comando. A única rota de fuga era uma janela, e enquanto os praças saltavam para fora, os oficiais se encarregaram da cobertura. Os dois últimos a saltar foram Pinto Duarte e Atratino, que disparavam suas Thompson para que os soldados se afastassem com segurança. Saltando enfim pela janela, Duarte foi atingido por uma rajada nas pernas. Foi socorrido imediatamente pelo capitão Atratino, que arriscando-se a levar balas, arrastou-o até um ponto fora de vista do inimigo. Duarte sangrava copiosamente e dava sinais de estertor. Temia perecer sem o conforto de um companheiro. Atratino acomodou o tenente Duarte o melhor que pôde numa dobra do terreno e prometeu retornar para resgatá-lo.  O tenente Pinto Duarte tinha sacrificado a própria vida para garantir a evacuação segura de seus subordinados. Atratino não ficou atrás na sua demonstração de consideração pelos comandados, arriscando-se igualmente para salvar Duarte e proteger a retirada dos soldados que defendiam o posto de comando.

O armamento e a tropa de especialistas utilizados pelos alemães na operação merecem atenção especial. A infantaria alemã era organizada de forma diferente da doutrina americana, tanto esquematicamente como em questões de comando.

Em primeiro lugar, todo o poder de decisão tática estava centralizado nas mãos de graduados e oficiais subalternos. O escalão superior alemão se preocupava apenas em assinalar o objetivo e prover os meios de combate.

Os alemães levavam grande vantagem no que diz respeito ao armamento de infantaria. Privilegiavam o uso de armas automáticas, que eram relativamente limitadas nas mãos dos exércitos aliados se comparados com as armas disponíveis aos grupos de combate alemães. Em 1944, a Wehrmacht dispunha de fuzis de assalto, capazes de disparar rajadas. Cada grupo de combate de 9 ou 10 homens contava com uma metralhadora MG-42 (que os brasileiros apelidaram de “Lurdinha”, sabe-se lá por quê). Era uma arma versátil e de alta cadência. Dependendo do tipo de reparo podia ser usada como metralhadora anti-aérea, leve ou pesada. Para comparação, enquanto as Browning ponto 30 e os fuzis automáticos BAR usados pelos brasileiros disparavam cerca de 650 tiros por minuto, as metralhadoras alemãs dos modelos MG-34 e 42 chegavam aos 1.200 disparos por minuto.

Além do vasto poder de destruição, essas armas tinham um efeito psicológico muito arrebatador sobre os homens que alvejavam. Sem exagero, uma rajada certeira decepava um membro ou cortava um homem pelo meio. Além das Lurdinhas, os alemães usavam as metralhadoras de mão MP-40, também de alta cadência, e uma variedade de fuzis de repetição do modelo Mauser 98K e semi-automáticos, como os modelos G41 e G43.

A principal tropa empregada no contra-ataque provinha de uma divisão ligeira. Isso significa que era uma tropa especializada para luta em montanhas ou em qualquer outro tipo de terreno difícil, como no caso da cota 906. Essas unidades eram preferencialmente equipadas com os melhores armamentos de infantaria disponíveis. Embora os alemães estivessem na defensiva em todo o fronte europeu, tinham conservado várias divisões intactas na Itália. Os Aliados não haviam infligido grandes baixas aos adversários, que desfrutavam sempre das melhores e mais protegidas posições a cavaleiro dos atacantes. Embora muitos soldados alemães estivessem alquebrados depois de quatro ou cinco anos de guerra, sabiam combater com maestria. Haviam tido pela frente poloneses, franceses, russos, ingleses, americanos e agora iriam se embater com os brasileiros.

Enquanto os homens do 1o pelotão eram alertados para a situação que se complicava para os lados da 3a companhia, o 3o Pelotão da 1a companhia permanecia na base de partida junto ao capitão. O sargenteante da 1a Companhia, 1o sargento Bento Manuel, tinha assumido o comando a título provisório, e os soldados ainda não tinham se refeito moralmente do combate do dia 22 de outubro que ocasionara a morte do tenente Barbosa.

Preocupado pelo pequeno número de combatentes disponíveis para defender adequadamente a área da iniciativa inimiga em reconquistá-la, o tenente Gonçalves até então não tinha conseguido convencer, pelo telefone de campanha, o comandante da companhia da necessidade de enviar o 3o Pelotão para reforçar o dispositivo que brevemente seria alvo do contra-ataque. Pelas 10 da manhã, a fuzilaria ainda pipocava no setor à esquerda, com os tiros da “rasga papel” alemã sobressaindo-se.

Em concomitância com os pedidos de envio do 2o e 3o Pelotões, os alemães desencadearam um pesado bombardeio à retaguarda da cota 906, para impedir o envio de ajuda. Felizmente a alça dos tiros tinha sido calculada para além dos fox holes. Botossi observou o efeito das granadas alemãs que explodiam: “você olhava para as árvores, era a mesma coisa que formigas tivessem cortado as folhas. Tremia até o chão rapaz!”

A essa altura pela uma da tarde, por detrás das copas das árvores e telhados visíveis nas elevações a algumas centenas de metros à frente dos pelotões da 1a Companhia, vislumbravam-se alemães pulando das carrocerias de veículos.

Desesperadamente, tiros eram pedidos da cota 906 visando o local de reunião do inimigo em sua base de partida. A próxima ação do inimigo já estava clara e delineada na cabeça dos oficiais da 1a Companhia que ocupavam a crista. Sabiam dos acontecimentos da madrugada com a 3a companhia e que o inimigo matara alguns e prendera outros. Estavam pressentindo que os alemães deveriam proceder na limpeza do espigão frente a Castelnuovo di Garfagnana.

As posições do 1o Pelotão e do Pelotão de Petrechos haviam sido melhoradas na expectativa da continuação da ação. Naturalmente, Félix e Gonçalves esperavam o recebimento de munição e reforços para os dois pelotões. Mas receberam informação de que a caravana de munição trazida pelos alpinos italianos tinha sido bombardeada, perdendo sua carga e condutores. Isso não justificava a inoperância do comando em não enviar mais munição previamente ao contra-ataque.

Foi então que a algumas centenas de metros da cota 906, do lado das posições alemãs, os expedicionários avistaram foguetes de iluminação atravessando o céu. Sinais luminosos verdes, azuis e amarelos se entrecruzavam coordenando a progressão da tropa atacante.

De um ponto mais elevado no cume da cota 906, o 3o sargento Epapharol Silveira, no comando de uma seção de morteiros de 60mm no pelotão de petrechos do tenente Félix, avistava uma incessante movimentação de tropa em meio à vegetação de pinheiros e castanheiros a algumas centenas de metros à frente. Organizada em formação de ataque, a infantaria que avançava em direção às posições em mãos do I Batalhão, de vez em quando desaparecia, protegida pelas ondulações do terreno. Um pouco atrás da linha de soldados que avançavam, Silveira divisou guarnições de morteiros e metralhadoras pesadas montando suas armas sobre os reparos.

A tropa que progredia na direção dos brasileiros vestia uniformes de cor muito semelhante aos seus, de um tom cinza esverdeado.  Oficiais e graduados vinham à frente, agitando pistolas e submetralhadoras para incentivar o restante dos atacantes. No lugar dos capacetes de aço recortados em torno das orelhas, traziam à cabeça bonés de lã com abas que se estendiam sobre os olhos. Na manga direita dos uniformes e na aba dos bonés, tinham o distintivo das três folhas de carvalho das tropas de infantaria de montanha. Pertenciam a um batalhão do Jäger-Regiment 25, da 42a Divisão Jäger.

A tensão era crescente entre os soldados da 1a companhia. Com o suor escorrendo pela fronte, alguns faziam as últimas verificações em suas armas, apertando com grande expectativa em suas mãos as coronhas de suas metralhadoras, carabinas e fuzis.

Percebendo a aproximação do combate, o 2o Pelotão, posicionado na encosta abaixo da cota 906, reiniciou a escalada em direção aos fox holes situados na crista. O capitão Tavares, depois de reiterados pedidos, tinha acedido o retorno do tenente Carrão e seus soldados. Gonçalves enviou o 2o sargento Pontes, auxiliar do pelotão e seu eventual substituto, na missão de ligação com pelotão de Carrão. Mas o homem não cumpriu a missão, enfiando-se num buraco até o fim da ação. Depois do combate, Pontes acabou na cozinha.

O assalto aos postos avançados brasileiros foi precedido de uma barragem dos morteiros alemães há pouco instalados. Granadas de 50 e 81mm chegavam silvando e explodiam ao atingir o solo e os galhos e troncos dos castanheiros. Uma das granadas atingiu um dos fox holes em cheio, projetando a lona de barraca que servia como cobertura a vários metros de altura. Os expedicionários, protegidos em seus fox holes, se abaixavam para evitar os estilhaços mais próximos e permaneciam atentos aos lances seguintes da refrega.

Por deliberação do acaso, o pelotão do tenente Carrão atingiu suas posições na cota 906 justamente ao mesmo tempo em que a primeira vaga de ataque inimigo se aproximava para dar combate. De forma célere e em meio a apuros, o 2o Pelotão se pôs em posição no terreno, ao lado esquerdo do 1o Pelotão e o Pelotão de Petrechos.

Com o retorno do 2o Pelotão para a cota 906, dois esclarecedores foram à frente, verificando a existência de inúmeros abrigos inimigos aparentemente abandonados na contra encosta. Suspeitando da presença dos inimigos, Carrão mandou que o soldado Lauro, um dos esclarecedores,  examinasse o interior dos abrigos sob a proteção dos três FM do 2o Pelotão para tirar as dúvidas.  Enquanto Lauro voltava para observar o interior dos abrigos, granadas inimigas começaram a silvar por cima do pelotão. Um bombardeio de morteiros 81mm alemães começara a ser disparado na direção de Sommocolonia.

Lauro foi o primeiro elemento do 2o Pelotão a tomar contato com o inimigo. O soldado prosseguiu rastejando por 30 metros, até se avizinhar de uma posição inimiga. Foi surpreendido por um soldado alemão que surgiu de um abrigo, apontando-lhe o fuzil e chamando-o para que se aproximasse da posição. Mas o soldado Ramão, que observara o avanço de seu companheiro Lauro, pôs o inimigo por terra com um certeiro tiro de fuzil.

Segundo escreveu o tenente Carrão em seu diário, “este tiro de fuzil serviu para a abertura de um violento fogo de armas automáticas sobre toda a companhia na cota 906. Tratava-se de um violento contra-ataque alemão com granadas de mão, fuzil, metralhadoras pesadas, metralhadora de mão e morteiros. O inimigo atirava e progredia rastejando. Concitei o pelotão com energia, para não se retirar e abrir fogo, no que fui atendido prontamente.”

Pouco a pouco, frente aos pelotões da 1a Companhia, os vultos iniciais divisados ao longe, em meio à fumaça das explosões e terra deslocada, transformavam-se em figuras nas quais de tão próximas que estavam deixavam ver até mesmo detalhes de uniformes e feições faciais.

No 1o Pelotão, o sargento Piske percorria recurvado as posições de abrigo em abrigo, aconselhando os soldados. “Cuidado! Deixem os homens chegarem perto antes de atirar.”

Os tedescos, veteranos experimentados, comportavam-se de forma temerária. Progrediam em lances procurando ocultar-se no relevo, encurvados e disparando metralhadoras e fuzis semi-automáticos em apoio mútuo aos demais grupos que avançavam. As rajadas passavam sibilando, atirando torrões de terra e lascas de pedra para cima, atingindo pontos ao redor do pelotão bem abrigado no terreno. Quando parte da tropa chegava mais próxima dos brasileiros, era a vez de atirar para proteger o lance do resto dos atacantes. Uma das visões mais marcantes da ação foi uma dupla de alemães que carregava uma metralhadora Lurdinha nas mãos. Enquanto o atirador avançava, outro soldado o acompanhava lado a lado alimentando as cintas de munição da arma.

Até então, nenhum tiro havia partido das posições brasileiras. Segundo Tanese, “não tinha condições de levantar a cabeça. Era bala por tudo quanto é lado.”

Quando a primeira vaga de ataque alcançou 30 metros de distância dos fox holes, o 1o Pelotão abriu fogo.

Palermo definiu o efeito da abertura do fogo entre a tropa alemã: “Foi uma carnificina.”

Tanese gritou para que Gunha e Botossi começassem a jogar suas granadas de mão contra os alemães. O 3o sargento pegou a primeira granada de mão e pensou: “seja o que Deus quiser!” Juntamente com o sargento, os dois soldados lançaram uma barragem de granadas em frente aos inimigos. O FM do 1o Grupo de Combate estava com o soldado Benedito Vieira da Silva Filho.

“Dito! Mete bala nesses filhos das putas!” Meio na gozação, o soldado molhou a ponta do dedo com saliva e passou na alça de mira do FM. Dito mirou para a frente e abriu fogo. Os soldados Padilha e Alvino também atiravam com seus Springfields. Os alemães não conseguiram acessar aquela parte da crista.

De cada abrigo na cota 906 partiam tiros cuidadosamente mirados contra os atacantes. Debaixo de alentada pressão os soldados deveriam manter a calma: esperar a aproximação do inimigo, mirar e ter certeza de disparar as armas para acertarem. Não se podiam dar ao luxo de utilizar a preciosa munição restante para simplesmente barrar as possíveis vias de avanço: cada tiro disparado deveria causar uma baixa no lado alemão.

Tropas com disciplina de fogo tão bem regulada são geralmente experientes, com anos de combate nas costas que permitem o controle dos nervos em situações extremas, como sustentar uma posição com pouca munição frente a um assalto de infantaria inimigo em superioridade numérica. Naquele dia, os homens da 1a companhia combateram como se fossem veteranos de várias campanhas.

Piske, Gonçalves e Félix revezam-se na regulação dos disparos de artilharia. Com o torso para fora do fox hole e a carta da região aberta sobre as pernas cruzadas, Félix se arriscava para direcionar o bombardeio. Cumpria a função do tenente observador da artilharia, que preferira permanecer longe da linha de frente, junto com o comandante da 1a Companhia…

Mas segundo Piske, os disparos estavam sendo ineficazes, pois os alemães haviam chegado muito perto das posições brasileiras: “os tiros caíam muito atrás do morro lá adiante, e por mais que eu mandasse encurtar, de nada adiantava.”

Gritos frenéticos de “auf, auf” dos graduados alemães podiam ser distinguidos em meio à fuzilaria. Era impressionante assistir o modo desassombrado com que avançavam, aparentando não temer terem seus corpos retalhados pelas rajadas e estilhaços. Foi como se os alemães estivessem tentando pegar seus adversários à unha.

Sentindo o impacto do fogo brasileiro, a primeira vaga de ataque alemã foi rechaçada, e os Jägers retraíram para além da linha de visão das posições brasileiras na contra encosta da 906. Enquanto se refaziam, mais foguetes luminosos foram lançados para chamar reforços.

Atento aos próximos lances, o comandante do 1o Pelotão movia-se de abrigo em abrigo para encorajar a tropa e dirigir o fogo das armas automáticas. Entre um lance e outro, tentava restabelecer o contato com o comando da companhia pelo telefone de campanha, pedindo mais munição.

Dividindo-se entre as tarefas de regular a alça da artilharia, manter o contato com o posto de comando e orientar a tropa, sargentos e tenentes percorriam os fox holes gritando energicamente.

“Deixa os homens chegar! Atirem para matar! Não atirem à toa!”

Sob novos alentos a segunda vaga de assalto se iniciou em meio a novo bombardeio inimigo.

Deitado atrás de uma touceira de arbustos, o sargento Epapharol Silveira regulava os disparos da seção de morteiros. Repentinamente, um enorme estilhaço podou os galhos da planta a sua frente. De acordo com Silveira, “aquilo parecia o facão do Caxias”.

Os soldados alemães que atacavam a cota 906 subiam as escarpas em pequenos grupos. De início, viam-se suas cabeças e à medida em que subiam, colocavam-se de corpo inteiro sob as vistas dos expedicionários entrincheirados. Enquanto os alemães cobriam seu avanço pelo volume de fogo, os soldados brasileiros aguardavam tensa e nervosamente a aproximação dos inimigos, sem efetuar disparos. Os gatilhos só eram comprimidos quando a proximidade do soldado alemão garantia a certeza de um disparo inequívoco.   Via-se então, por entre a fumaça, a figura do inimigo encurvado desfalecer sobre ao chão.

Disparando com cuidado na pontaria e economizando a munição, pela segunda vez o contra-ataque alemão foi estancado pelos três pelotões da 1a Companhia.

Pedidos de munição e reforços solicitados ao posto de comando da companhia eram redundantes. Em pequenos intervalos, o capitão tornava a ligar para os pelotões desejando pôr-se a par da situação.

Enquanto os expedicionários contavam seus derradeiros cartuchos e granadas, a terceira onda de assalto se dirigia para mais uma tentativa de desalojar a 1a companhia da cota 906.

Novamente uma vaga de ataque se aproximava das posições fazendo o tiroteio recrudescer. Imagine-se a dramaticidade da situação enfrentada pela 1a companhia: as várias dezenas de alemães que se aproximavam eram alvos fáceis, mas a munição escasseava, chegando próxima ao fim. A vontade de atirar e manter os alemães distantes era grande, mas o que ocorreria se o inimigo se aproximasse dos brasileiros já sem munição? O problema tinha sido percebido por todos. Maud se aproximou de Gonçalves rastejando. Empunhando o fuzil desmuniciado,  perguntou:

“Tenente, a minha munição acabou. O que é que eu faço?”

“Pegue pelo cano e dê na cabeça do primeiro que chegar.”

No fragor do momento, essa foi a resposta que ocorreu ao tenente, imbuído da determinação de não abandonar as posições.

Parte dos assaltantes tentava desbordar os flancos da posição brasileira. Grupos de alemães surgiam por todos as vias de acesso. Enquanto serviam as peças de morteiros, a equipe do pelotão de petrechos disparava suas pistolas e carabinas ponto 30 até mesmo na direção da retaguarda da posição, onde se percebia movimentação de alemães. Um pano de barraca colocado atrás do 1o Pelotão tinha sido furado por tiros de armas individuais, indício de que o inimigo estava envolvendo a posição. Imediatamente, um dos grupos de combate foi retirado da frente e posicionado à retaguarda do dispositivo na cota 906.

Abrigados em seus fox holes, os homens do 1o Pelotão demonstraram sangue frio a ponto de abater alemães a distâncias tão curtas como dez ou quinze metros das beiradas das posições. Era um tiro ou uma rajada e um alemão que caía. De um ou outro ponto situados pouco mais adiante dos brasileiros, granadas de bastão alemãs cruzavam o ar e explodiam fazendo voar estilhaços e detritos. Algumas foram atiradas de volta ao inimigo antes que detonassem. “Você via a trajetória da granada de mão dele, onde ela ia cair”, recorda Palermo.

Do lado dos brasileiros, Vicente Gratagliano tinha trazido doze granadas de mão em seu bornal. Deu algumas granadas para Nelson Wood, José Ramos de Araújo e outros soldados, e conservou seis, que atirou contra os alemães quando a munição de seu FM acabou. Segundo Gratagliano, “foi a única vez que nós tivemos vantagem com eles. Nós estávamos em cima e eles embaixo. Quando eles avançaram, foi de uma maneira que ninguém esperava. Eles atacaram feio em cima de nós, e nós metendo fogo em cima. Aquela plantação foi arrasada. O campo ficou limpo, com as rajadas de metralhadora e morteiro e tudo.”

Os alemães sabiam precisamente onde se localizava a tropa do 6o R.I., mas só o que conseguiam ver era um ou outro capacete que subia e se abaixava e os clarões da chama de boca das armas dos soldados que se esquivavam das rajadas que passavam rentes ao chão em torno de seus abrigos. Quem ousou chegar mais perto dos fox holes brasileiros teve sua participação na guerra encerrada no cume da cota 906.

Novamente o capitão Tavares chamou o 1o Pelotão pelo telefone. “O que se passa por aí? Ainda estou escutando tiros…”

Tomado de repulsa pela leviandade do capitão, o tenente Gonçalves respondeu de forma ríspida. “Senhor capitão, de onde o senhor está, o senhor não comanda a companhia.” “O senhor por favor não me chame mais”, continuou Gonçalves, “que eu não vou mais atender o telefone, a não ser que seja uma ordem de retirada.” Respondendo aos chamados do comandante da companhia, o tenente se expunha ao fogo inimigo, no deslocamento entre os fox holes e o abrigo onde estava instalado o telefone.

Era impossível disfarçar a animosidade entre o comandante da 1a Companhia e seus subordinados. Sem paciência com as inquirições inoportunas de seu comandante, Gonçalves encerrou a ligação e voltando sua atenção para o comando do pelotão.

Tedescos alcançavam o cume da 906 esgueirando-se pelas depressões no relevo e  colocando suas armas automáticas em posições de vantagem no terreno. Varriam a frente com rajadas em direção aos brasileiros, que respondiam com os fuzis metralhadora e as duas metralhadoras leves do pelotão de petrechos. As saraivadas dos alemães revolviam o solo lançando terra e detritos para o ar, mas sem acertar ninguém. Os expedicionários tinham aprendido rapidamente o motivo que tornava a escavação dos fox holes algo tão importante.

Numa porção mais alta da 906, a bazuca do 1o Pelotão disparava parte dos poucos rojões restantes em defesa dos homens do tenente Carrão postados a 100 metros, atirando em diagonal por cima das próprias posições.

Entre os graduados que lideravam a terceira vaga de assalto, um enorme oficial vinha à testa de seus homens, impulsionando-os com gestos de encorajamento. Segurava uma pistola em uma das mãos e uma granada de bastão em outra. Novamente os gritos de “auf, auf” do alemão eram audíveis.

Todas as armas automáticas concentraram seus disparos sobre aquela figura impressionante, rasgando o homem ao meio com várias rajadas simultâneas e desorientando momentaneamente os atacantes.

Na direita da cota 906, uma das metralhadoras ponto 30 permanecia silenciosa. Gonçalves gritou: “ponha essa arma para funcionar!” O cabo Assis, que manejava a metralhadora não respondeu. Estava sozinho operando a arma, após ter seu municiador ferido. Assis pegou um cunhete de 250 tiros e colocou a cinta de munição na arma.

Ainda mais para a direita da metralhadora Browning guarnecida por Assis, um outro grupo de alemães se aproximava. Alertado por alguns companheiros, o cabo Assis limitou-se a responder por meio de um aceno de espera com a mão. Quando percebeu que os tinha enquadrado sob sua mira, Assis abriu fogo esgotando a cinta sobre o grupo de alemães, destroçando-os.

A trinta metros das posições do 1o Pelotão, um outro grupo começava a assestar uma metralhadora com reparo por detrás de uma árvore. A arma tinha um campo de tiro privilegiado sobre os fox holes, e se iniciasse disparos, iria causar grande número de baixas. Cada vez menos tiros partiam das armas brasileiras. Grande parte dos soldados já tinha esgotado todos seus cartuchos.

Na derradeira tentativa de evitar o combate aproximado que fatalmente seria seguido do corpo a corpo, Ferreira apontou o lança-rojões na direção do castanheiro disparando sua penúltima granada. Em meio ao turbilhão do impacto, estilhaços, pedaços de vegetação e restos humanos se projetaram para todas direções. Anos depois, Ferreira relatou os lances finais que desbarataram a terceira vaga do contra-ataque alemão:

“Quando começou a feder o negócio, eles vieram de monte pra cima de nós, eles tavam avançando, avançando, avançando. Quando eles chegaram perto, eu podia dizer quem que tava comandando a tropa, porque eu observei um pouco antes o lance que eles deram, os três caras, né. Eu percebi que um daqueles era o comandante. Aí eles se jogaram atrás do castanheiro. Eu falei: daqui a pouco eles tão se levantando pra dar outro lance. Então, apontar em um só não adianta. Então eu já vou firmar a pontaria na árvore que eles se jogaram atrás. Fiquei apontando no tronco, a árvore era grossa. A hora que ele vai levantar a gente mete mecha. Chegou a hora, eles levantaram para dar outro lance, e o comandante levantou o braço e gritou puxei o gatilho. Quando tavam os três de pé, a bomba estourou. Os três, no mesmo lugar, caíram no chão. Dali desnorteou o troço. Eu tinha seis granadas e fiquei com uma só”.

O último disparo de Ferreira deve ter atingido o oficial que coordenava a terceira onda do ataque. Com o ânimo alquebrantado, os alemães arrefeceram a progressão. De tanto atirar com a bazuca, Ferreira andou por muitos anos com ambos os olhos avermelhados, conseqüência das faíscas emanadas do lançamento dos foguetes. Não tinha lhe ocorrido vestir a máscara de proteção que acompanhava a arma. A intensidade do combate foi tanta que Gonçalves nem pôde disparar sua carabina, pois teve que fazer as vezes de municiador da bazuca do soldado Ferreira entre os pedidos de tiros de artilharia e comunicação com o PC da 1a Companhia.

Finalmente o silêncio pairava sobre a cota 906. Entrando em contato pelo telefone novamente, o capitão Tavares emitiu ordem de retraimento para os três pelotões da 1a Companhia, tão logo a terceira onda de assalto esmaeceu sob o fogo. O combate tinha sido travado por mais de uma hora e meia, dividido em três lances! Restavam aos três pelotões meros 123 cartuchos de fuzil!

Até que fosse dada a ordem de retraimento, nem um soldado, cabo ou sargento dos pelotões hesitou em permanecer na posição.

O 3o sargento Epapharol Silveira recorda que os soldados tinham perdido a refrega, mas não a presença de espírito: quando foi recebida a ordem de retraimento, os três cabos que comandavam as peças de morteiros gritaram simultaneamente:

“Putada, debandar!”

Abandonando a cota 906, a 1a Companhia despencou para a baixada, levando as armas mas deixando o excesso de peso como mochilas e outros equipamentos individuais. O tenente Gonçalves acabou deixando o estojo de seu binóculo pendurado em um galho. Ainda durante a descida, escutaram um dos soldados gritar em tom gaiato: “quero o número do último filho da puta que chegar lá em baixo!” Mas naquele momento ninguém teve tempo de achar graça da pilhéria.

Atirando-se morro abaixo, os homens iam se escorando como podiam na vegetação. Esperavam ser engajados em perseguição pela tropa alemã, que acreditavam vir atrás dos pelotões, mas nada ocorreu. No caminho de retirada, chegaram a ver muito sangue e cadáveres de alpinos e mulas que tinham sido incumbidos de levar munição aos pelotões.

Subindo a elevação anterior à cota 906, o pelotão ainda esperava ser alvejado pelos alemães. Mas não recebeu nenhum disparo. O inimigo não se tinha posto no encalço da tropa que retornava à base de partida. Embora a topografia dificultasse o acesso, em linha reta a distância entre as duas elevações era pequena, dentro do alcance prático de um tiro de fuzil. Os homens não entenderam o porquê de não haverem sido perseguidos. Àquela altura, a 1a Companhia era uma presa fácil, com menos de três cartuchos de munição por homem.

Na elevação oposta à cota 906, Gonçalves subiu uma escada de madeira para saltar do outro lado do muro onde poderia encontrar maior segurança. Ao passar as pernas por cima do muro, tinha quase certeza que seria alvejado por um tiro de fuzil. Mas todos conseguiram passar para o lado oposto do muro sem que o inimigo efetuasse nenhum disparo.

O mais provável é que os atacantes alemães também tenham consumido toda sua munição, ou perdido um número de homens que não permitisse a continuação do combate.

Inacreditavelmente, o 1o Pelotão não tinha nem só um morto ou ferido mais grave a lamentar. Todos tinham obedecido à risca a determinação de se entrincheirar no terreno e só disparar com certeza de atingir o alvo.

De onde os soldados encontraram o vigor necessário para resistir frente às mais terríveis adversidades? Como foi possível que nenhum vacilasse em permanecer nos abrigos, só retraindo depois que a ordem foi dada?

Do alto da cota 1048, só restava à 2a companhia a opção de também retornar para a base de partida, ou ser envolvida pela fração de tropa atacante que convergia em sua direção. O grande interstício entre as companhias do I Batalhão tornara demasiado fácil a infiltração dos inimigos. Sem ligação com o comando do batalhão, pois o cabo telefônico havia sido cortado por uma granada, a 2a companhia estava isolada no alto da elevação que tinha sido seu objetivo na operação, embora não tivesse sido engajada no combate.

A operação foi dada por encerrada com o retraimento da 2a companhia ao cair da noite. Foi a menos infortunada das unidades a participar do ataque, sem ter sido atingida pela infantaria inimiga.

A respeito da ocasião, o 1o tenente Evangelista, subcomandante da 2a Companhia, escreveu:

“Após 40 minutos de descida forçada e sujeito a envolvimento por tiros inimigos, em Sommocolonia entrei em contato com o comandante do batalhão, que já recebera ordem do comandante do R.I. para o retraimento à base de partida. A companhia, aproveitando a escuridão da noite, recuou das posições, por pelotão, e só um cabo foi ferido e transportado em uma manta na falta de padiola. Noite nada tranqüila, com alguns casos de nervosismo. Eu mesmo assisti a dois”.

Quando os pelotões da 1a Companhia voltaram para as imediações da base de partida, o tenente Carrão ainda não tinha retornado do local do combate, pois havia se separado do 2o Pelotão na confusão da retirada. Todos temiam que Carrão tivesse sido capturado pelos alemães. Durante o retraimento desordenado, os soldados não tinham retornado exatamente para o ponto de onde o ataque havia partido. Portanto, o tenente Carrão desconhecia a nova e imprecisa localização de seus homens e companheiros dos outros pelotões, que demonstravam uma generalizada preocupação com sua sorte.

Para a surpresa de todos, quando a noite caiu por completo, um vulto surgiu frente às novas posições. Um sinal de alerta foi dado e os sentinelas colocaram-se em prontidão.

Cambaleante, o homem se aproximava, embora sua fisionomia fosse indistinguível. Mas à medida em que se acercava, o vulto ia se assemelhando à silhueta de Carrão. Exultando em rever seu companheiro, Gonçalves desceu de supetão a ribanceira, indo de encontro à figura que de fato se revelou ser o comandante do 2o Pelotão, com quem se cumprimentou efusivamente. Abraçaram-se e beijaram-se felizes em saber que ambos estavam vivos. Carrão tinha alcançado as mesmas posições por acaso. Mesmo ferido, depois de cinco horas Carrão assomou sozinho, numa coincidência quase milagrosa, pela mesma estrada trilhada pelo 1o Pelotão para a nova posição.

Infelizmente, poucos homens do I Batalhão tinham motivos para exultação.

O fato de haver abandonado o tenente Duarte moribundo assombrou o capitão Atratino por toda a campanha. No dia seguinte, o comandante da CPP I organizou patrulhas com homens da 3a Companhia, que não conseguiram atingir o local provável onde Pinto Duarte havia sido visto pela última ocasião. Somente após o fim da guerra, depois que os alemães desocuparam a região de Barga, foi possível retornar ao local.

A 3a Companhia foi a subunidade mais duramente atingida pelo contra-ataque, que lhe custou dois mortos, cinco feridos e 15 desaparecidos, que caíram prisioneiros. No total, quatro brasileiros perderam a vida no dia 31 de outubro. Reunidas na base de partida, a 3a Companhia e a CPP I foram recebidas pelo general Zenóbio da Costa. Vociferando, o general descompôs os homens atirando-lhes a pecha de “covardes”. Há testemunhas do episódio que alegam que foi necessário que Atratino segurasse o capitão Aldenor para que não partisse para cima do general, por causa de seu temerário juízo a respeito da “Melhor do Mundo.”

Depois de 45 dias de ininterrupto avanço, o 6o R.I. tinha sido barrado. Não era uma situação à qual estivesse acostumada a tropa brasileira, e que acabou por gerar vários desentendimentos e rancores entre o alto comando do Destacamento FEB e os escalões combatentes.

Acusações foram trocadas de cima abaixo em todos os níveis hierárquicos envolvidos na operação. Soldados, cabos, sargentos e tenentes manifestaram seu repúdio pelo desleixo de parte do comando e pela falta de coragem moral em admitir as que o revés foi causado pela deficiência da preparação do ataque.

Para muitos dos que combateram naquele dia, o motivo do sucesso alemão foi uma patente manifestação de incompetência do comando, que agiu de forma incauta e irresponsável para com seus subordinados. Ao contrário do exemplo dos grandes comandantes militares, que chamavam a si toda a responsabilidade pelo curso dos acontecimentos, atiraram a culpa do retraimento à suposta “negligência” dos pelotões de fuzileiros.

Mas os responsáveis pelo planejamento em alto escalão procuraram se eximir da responsabilidade ao omitir que haviam descurado do remuniciamento, a mais elementar medida de continuação do combate.

Preferiram atribuir as falhas aos tenentes e sargentos, que já tinham muito com que se preocupar, dando tiros de dentro de buracos nos alemães a poucos metros de distância.

Ademais, não foi por falta de aviso que o escalão de ataque inimigo conseguiu se aproximar da linha mantida pelos brasileiros, como provou o depoimento do tenente que observou a preparação do contra-ataque do avião americano.

Talvez o mais apurado juízo a respeito do episódio tenha sido registrado por um sargento alemão que combateu no setor de Sommocolonia em dezembro de 1944. Hans Burtscher, comandante de um grupo de combate do IV Batalhão de Alta Montanha alemão, foi enviado ao setor da cota 906 para a operação Wintergewitter, que acabou conquistando a cidade de Barga das mãos dos americanos, de acordo com o recado que os alemães haviam mandado os italianos transmitir.

Muitos anos após a guerra, Hans escreveria a respeito do combate: “opondo-se a nós pela direita, na vila de Lama estão as tropas brasileiras com uma reputação de bravura, mas nosso avanço está direcionado contra os elementos da 92a Divisão Americana.”

O destacado conceito de que desfrutavam os brasileiros entre tropas de elite alemãs como os famosos soldados de  montanha, os Gebirgsjäger, certamente derivou do grande combate dos dias 30 e 31 de outubro de 1944.

O avanço do Destacamento FEB na região havia até então sido o mais significativo contato dos brasileiros com as tropas alemãs. Comprometido no setor de Sommocolonia, Hans tomara conhecimento da denodada resistência sustentada pelos homens do I Batalhão do 6o R.I.

* Do italiano: Camaradas! Camaradas!

Deixe um comentário