CAMAIORE E MONTE PRANA

Na foto, Monte Prana. Imagem de Giuseppe Luigi di Pace.

Texto por Cesar Campiani Maximiano.

PRIMEIRA PARTE

A 2ª Companhia de Fuzileiros do 6º Regimento de Infantaria estava a postos. Quase duzentos homens, organizados em três pelotões de fuzileiros mais o apoio de um pelotão de petrechos, equipado com três morteiros M2 de 60 mm e uma seção com duas metralhadoras Browning .30 refrigeradas a ar da Companhia de Petrechos Pesados do I Batalhão. Iriam estrear em combate naquilo que o jargão militar resolveu chamar de um setor “tranqüilo” da linha de frente – mais precisamente, no norte da Toscana, em setembro de 1944.

Nos dias anteriores, o 6º Regimento havia ocupado sem resistência as localidades de Massarosa, Bozzano e Quiesa. Até então, os soldados brasileiros eram celebrados como liberatori e recebidos com vinho e a típica extroversão italiana. A próxima missão seria a ocupação da pequena Camaiore, uma cidade da região da Versilia que começa no litoral e se prolonga adentro dos Alpes Apuanos, e que no tempo da guerra tinha cerca de oito mil habitantes.

No dia 18 de setembro de 1944, o comando do Destacamento FEB designou o Capitão Ernani Ayrosa da Silva para comandar o grupamento encarregado de entrar em Camaiore, que ficava a 16 quilômetros de montanhosa distância da linha de cidades que a FEB vinha ocupando desde o dia 15. Dos três pelotões disponíveis, Ayrosa escolheu aquele comandado pelo Tenente Cabral, junto com uma seção de metralhadoras Browning .30 do Pelotão de Petrechos. A linha de partida seria Massarosa.

A operação não era de grande porte, embora fosse muito significativa para a história da FEB: Camaiore seria a primeira das cidades a ser capturada que oferecia possibilidades de apresentar resistência alemã mais decidida. Ciosos da importância da missão, a operação teve apoio cuidadosamente planejado por parte dos oficiais brasileiros. Além da tropa de infantaria brasileira, a força de ataque também incluía um pelotão de carros de combate americanos; um grupo de bazuqueiros, uma seção de metralhadoras pesadas e outra de morteiros 81 mm da Companhia de Petrechos Pesados do I Batalhão do 6º Regimento, sob o comando do Tenente Grossi; os jeeps do Esquadrão liderados pelo Tenente Belarmino; uma esquadra de homens especializados em limpeza de minas da Companhia de Comando do I Batalhão, a cargo do Tenente Paulo, e uma esquadra de padioleiros, com o Tenente Bicalho. Os atacantes podiam contar também com uma bateria da artilharia britânica – excelente apoio de veteranos do 8º Exército que já vinham combatendo os alemães há anos.

Capacetes de aço na cabeça, os fuzileiros do pelotão do Tenente Cabral conferiram a munição e saltaram na caçamba dos caminhões de 2,5 toneladas. A longa coluna de jeeps e caminhões prosseguiu até o vilarejo de Luciano, para estabelecer ligação com os tanks americanos.

À frente da coluna, os jeeps do 1º Esquadrão de Reconhecimento avançaram junto com os fuzileiros da 2ª Companhia na direção de Camaiore. Ao atingirem Luciano com os homens embarcados nos caminhões, as viaturas fizeram alto. Os fuzileiros desembarcaram rapidamente, galgaram os carros de combate americanos e prosseguiram no avanço. Vários pontos da estrada estavam interrompeidos por crateras de granadas alemãs. A cada buraco de explosão, os “mineiros” da Companhia de Comando desciam dos caminhões e verificavam a existência de armadilhas explosivas. Então, um carro bulldozer americano que seguia à frente da coluna tapava o obstáculo para que o avanço pudesse continuar.

Por volta das 18:00 horas, a coluna alcançou o vilarejo de Nocchi, onde recebeu as boas-vindas por parte da artilharia alemã. O comandante do pelotão de tanks americanos informou que não poderia prosseguir, pois era grande o risco de serem atingidos fogo direto de armas anti-carro. Os americanos ficariam na área de Monte Nocchi, apoiando o avanço com o fogo dos blindados.

Da retaguarda, o General Zenóbio da Costa observava o encontro de brasileiros e americanos, pelo binóculo. Sem entender a razão do alto em Nocchi, Zenóbio deslocou-se de jeep até o ponto onde se encontrava Ayrosa. Como foi descrito pelo capitão, Zenóbio gritou, de longe, ao avistá-lo:

“-Capitão, o que é que o senhor vai fazer?”

“Senti um ímpeto de quase raiva e respondi-lhe, no mesmo tom, com outra pergunta:

“-Qual é a missão general?”

“-Tomar Camaiore.”

“-Pois vou cumprir a missão.”

O Capitão Ayrosa ordenou então que os soldados da esquadra de minas e os fuzileiros subissem nos cofres dos Jeeps do Esquadrão e da CPPI, que traziam os morteiros e as metralhadoras. Soltaram-se os reboques com o armamento pesado e a munição, que seriam trazidos posteriormente. Os Jeeps avançariam com os soldados de armas em punho e as metralhadoras .30 fixadas nas torres.

Ayrosa então pediu que seu motorista, o soldado Werther Perrenoud, se afastasse para o lado, e o capitão seguiu em alta velocidade e serra abaixo ao volante de seu jeep, batizado de “Eliana-Maria-Dulce”, que ia à frente da coluna em um total de 19 viaturas leves. Enquanto o capitão e seus comandados avançavam, os generais e coronéis brasileiros observavam, de longe, pelos binóculos.

Mantendo a distância de segurança de 100 metros entre si, as viaturas da FEB continuaram na estrada, e fizeram alto quatro quilômetros antes do limite urbano de Camaiore. Na descida da serra, tinham topado com mais uma ponte dinamitada pelos alemães.

A esta altura, a noite já chegara. Os soldados brasileiros apearam das viaturas pela última vez. O resto do percurso deveria ser feito a pé.  Nesse meio tempo, Ayrosa determinou que os Jeeps voltassem ao Monte Nocchi para trazer os demais pelotões que tinham ficado para trás.

O grupamento se reorganizou, com os “mineiros” da CCI à frente, seguidos de perto pelos fuzileiros do pelotão sob o comando do Tenente Cabral. Um pouco mais atrás, vinha o Capitão Ayrosa com as metralhadoras leves do Pelotão de Petrechos e as metralhadoras pesadas da CPPI. Estavam acompanhados dos homens dos morteiros e dos padioleiros e enfermeiros da seção de saúde do I Batalhão.

Prosseguindo com cautela, às 19:30 os brasileiros entraram em Camaiore sem oposição da infantaria inimiga, mas sob fogo de seus morteiros. Embora a ocupação de Camaiore não possa ser considerada um combate de grandes proporções, o comportamento dos alemães prenunciava a tática defensiva que seria utilizada nos meses seguintes, nas operações de maior vulto: abandonar posições mais baixas, e procurar ocupar e defender locais cuja topografia dificultasse os ataques.

Os soldados colocaram-se em disposição de combate nas vias desertas de robustas casas datadas dos séculos XVI e XVII, de típica construção da Versilia. Em seguida à penetração dos fuzileiros da 2ª Companhia, mais reforços de homens da 7ª Companhia chegaram em Jeeps. Até então, nenhum indício visual da presença do inimigo.

Os alemães, no entanto, estavam próximos. Disparos da artilharia e de morteiros inimigos faziam-se ouvir explodindo em diversos pontos da cidade. Cinco granadas caíram nas proximidades do Posto de Comando da 2ª Companhia, instalado no Palazzo Tori, a antiga sede do Partido Fascista que havia em Camaiore. A regulação dos tiros era precisa, e só poderia ser feita do cume do Monte Prana, uma elevação ao norte da cidade que oferecia um ótimo ponto de observação sobre o avanço da tropa brasileira. De fato, a ocupação de Camaiore não podia ser considerada como uma operação concluída enquanto os alemães não fossem expulsos do Monte Prana.

A primeira das granadas causou o primeiro ferido em combate da FEB. Um soldado que estava nas proximidades do P.C. foi atingido pelos estilhaços. De imediato, o 1º Tenente João Evangelista Mendes da Rocha, subcomandante da companhia, notou que não havia ambulâncias nem padioleiros por perto. Rocha colocou o homem dentro de seu Jeep, e o levou a toda velocidade para a casa onde o pessoal do de saúde havia instalado o posto de socorro. Depois, o tenente verificou o local de impacto das demais granadas para conferir se havia mais vítimas. Por sorte, as explosões não feriram mais ninguém.

No entanto, nos dias seguintes, os alemães de Monte Prana dispararam mais 35 granadas sobre a tropa brasileira, que explodiram sem atingir soldados, mas que causaram ferimentos em mulheres e crianças. A virada da noite do 19 para 20 foi chuvosa, e, nessas jornadas, os avanços do Destacamento FEB possibilitaram consolidar a posse da rodovia que liga Camaiore a Lucca. Durante a retirada, os alemães dinamitaram seis pontes na estrada, que foram rapidamente recuperadas com o trabalho da companhia de Engenharia que havia embarcado para a Itália junto ao 1º Escalão. Infantes e engenheiros combatiam e trabalhavam na lama, que iria se provar uma constante característica do front daquele momento em diante.

Instalado em Camaiore, o Capitão Ayrosa decidiu empreender uma patrulha para a localidade de Casoli, para explorar o êxito da ocupação. Outras companhias do regimento também executaram missões de reconhecimento à frente da linha ocupada pelos brasileiros.

Assim, os primeiros quatro desertores alemães foram pegos no dia 20 de setembro, e no interrogatório prestaram informações sobre o pequeno efetivo que defendia o Monte Prana. Pouco depois, mais dois soldados italianos foram trazidos. Os seis jovens estavam maltrapilhos e mal alimentados, mas mesmo assim eram os primeiros soldados inimigos que os brasileiros viam de perto. Todos foram efusivamente fotografados, e as imagens publicadas na revista Em Guarda, que era impressa nos EUA em português e distribuída no Brasil. Esses homens foram apresentados à imprensa como os primeiros prisioneiros de guerra feitos pela FEB. No entanto, não foram capturados após um entrevero aproximado de armas de infantaria; em vez disso tratavam-se de quatro jovens alemães e dois italianos das novas divisões de Mussolini que, cansados de guerra e com medo de morrer, desgarraram-se de suas unidades e perderam-se na terra de ninguém aguardando uma oportunidade de passar para as linhas dos Aliados. As fotografias da Em Guarda, se estudadas com calma, apresentam os prisioneiros trajando paletós civis sobre os restos de uniforme que ainda usavam – um subterfúgio utilizado para ajudar a despistar os próprios nazi-fascistas que eventualmente pretendessem frustrar a tentativa de deserção.

Obviamente, nem todos alemães estavam tão mal motivados como os quatro jovens pegos pela FEB nas proximidades de Camaiore. A 16ª Divisão da Waffen-SS, a Reichsführer-SS, encontrava-se no setor do front confiado à Task Force 45, que havia sido substituída justamente pelos brasileiros no dia 15. Os homens da 42ª Divisão Jäger, em especial, ainda levavam a sério a tarefa de guerrear pela Vaterland e não mostravam nenhuma disposição de permitir que a infantaria da FEB conseguisse galgar as alturas do Monte Prana.

Embora a quantidade de alemães entrincheirados no morro fosse exígua (metralhadoras, morteiros e um grupo de combate de fuzileiros), era adequada para garantir a segurança da posição. Essa foi mais uma rápida lição aprendida pelos brasileiros que estreavam no front: bastava assestar a pontaria de armas como metralhadoras e morteiros em pontos que possibilitassem fogo de barragem sobre os itinerários a serem utilizados pelos atacantes para que a captura de uma elevação se tornasse difícil e custosa. Esses fogos que batiam as áreas mais prováveis de avanço podiam ser efetuados por reduzidas quantidades de homens que dispusessem do armamento adequado. Portanto, a eficácia das fortificações alemãs não deveria ser julgada pela quantidade de homens que as guarneciam, mas pelo tipo de armamento do qual dispunham e pela forma com que tais armas eram empregadas no terreno.

Armas como morteiros e metralhadoras existiam em profusão nas divisões de infantaria alemã. Ao travar os primeiros combates contra os alemães nos Apeninos, os brasileiros aprenderam a respeitar duas armas: as metralhadoras e morteiros dos inimigos.

Em suas unidades de infantaria, os alemães dispunham de dois tipos mais comuns de morteiros: um de 5 e outro de 8 centímetros. Os números indicam a medida da boca do cano da arma e o calibre das granadas. Os morteiros eram especialmente úteis na guerra de montanha, pois disparam suas granadas em trajetórias curvas, fazendo com que a tropa que é alvejada pela arma não possa divisar de imediato a origem dos disparos e vice versa: a guarnição da peça não precisava ver um alvo para efetuar o disparo – estes podiam ser regulados a partir de cálculos antecipadamente preparados nas cartas do terreno, ou por intermédio de um observador avançado que transmite as coordenadas de tiro por rádio ou telefone. Em ambos os casos, os defensores de Monte Prana estavam preparados: tinham um bom conhecimento do lugar, além de poderem visualizar o avanço brasileiro de cima da elevação. Assim, protegidos nas encostas dos morros, os alemães fustigavam a tropa brasileira a centenas de metros de distância. As granadas eram principalmente de fragmentação, que se repartiam em dezenas de estilhaços pontiagudos ao atingir o solo. Um dispositivo de tempo podia ser adaptado às granadas fazendo com que explodissem ao longo da trajetória, causando a letal chuva de shrapnel – que os brasileiros pronunciavam como sirape. Caso fosse requisitado pelos fuzileiros, os morteiros podiam também disparar granadas fumígenas, que alastravam cortinas de fumaça úteis para proteger avanços ou retiradas. No jargão da tropa brasileira, tanto as granadas de artilharia como as de morteiro foram indistintamente apelidadas de “mechas”.

No dia 21, o Destacamento FEB foi incumbido de prosseguir no avanço e conquistar a linha de elevações dos montes Prana, Pedone e Rondinaja. No avanço de 21 de setembro, o 6º Regimento de Infantaria perdeu seus primeiros homens mortos em combate: o soldado Antenor Ghirlanda (São Paulo, SP), da 9ª Companhia, Attilio Piffer (Amparo, SP) e Constantino Marocchi (Campo Largo, PR), ambos da CPPII, vitimados por estilhaços de morteiro disparados do Monte Acuto. Os nomes de filhos de imigrantes e as cidades de origem revelam as características procuradas pelo Exército Brasileiro na fase de organização da FEB: a tropa expedicionária foi composta, principalmente, por jovens de áreas urbanas das regiões sul e sudeste do Brasil. Era um contingente de homens com boa instrução escolar, a vasta maioria alfabetizada, e em excepcionais condições de saúde.

A campanha nos Apeninos iria cobrar um preço alto da saúde dos praças, graduados e oficiais que estivessem servindo nas unidades de Infantaria: ainda no início do outono, os soldados brasileiros já começavam a sentir os efeitos das intempéries do hemisfério Norte e as imposições de se alimentarem principalmente com as rações em lata do tipo C durante os avanços. Não que as rações americanas distribuídas à FEB fossem ruins – pelo contrário, eram sempre superiores ao intragável rancho fornecido antes da guerra.

As rações americanas traziam porções substanciosas de alimentos calóricos, algumas saborosas até, mas o problema estava nos métodos de conservação utilizados na década de 40, cujos ingredientes, insalubres para o sistema digestivo, arrasavam o homem que passasse algumas semanas à base de alimentação enlatada. Os bombardeios tornavam cada vez mais difícil o fornecimento de ração preparada nas cozinhas das companhias de fuzileiros para os homens empenhados nos avanços na linha de frente. E a cada aproximação com o inimigo, os bombardeios alemães se tornavam mais intensos.

Nas investidas seguidas à ocupação de Camaiore, a tropa brasileira defrontava-se com os postos avançados da Linha Gótica, o sistema defensivo de fortificações alemãs fincado entre a Itália central e o vale do rio Pó, que se estendia por centenas de quilômetros em corte transversal sobre os montes Apeninos.

O plano de ataque do dia 21 compreendia um avanço até os montes Pedona e Rondinaja, em seguida um desbordamento pelo leste, que consistia em contornar os dois montes pelo lado esquerdo e na seqüência progressão diretamente até o Monte Prana, o que evitaria um avanço frontal sobre a elevação. Coube à 7ª Companhia realizar essa manobra, entretanto, seus fuzileiros foram detidos por fogo bastante pesado de uma elevação que dominava parte do trajeto. O comando do Destacamento FEB então lançou mão da 1ª e 2ª Companhias de Fuzileiros, que tentaram fazer um percurso até o Monte Prana pela direção oeste. Após ocuparem mais alguns vilarejos, as duas companhias fizeram alto nas proximidades do monte que era o objetivo do ataque brasileiro desde a conquista de Camaiore. A guarnição de Monte Prana continuava a fustigar tanto Camaiore como outros pontos agora em mãos da tropa brasileira.

No dia 23 de setembro, a 6ª Companhia recebeu ordem de executar um reconhecimento no vilarejo de Fiano. Um grupo de combate é destacado para a missão, e, na exploração conduzida à frente, acaba trocando tiros com tropa alemã e retorna com dois homens feridos.

Essas pequenas escaramuças cumpriam o papel de “estágio de inoculação de combate”, para utilizar a terminologia asséptica dos manuais militares. Os soldados feridos e mortos neste setor do front teriam objeções a fazer quanto à classificação de “tranqüila” que a região recebeu por parte dos comandos militares, mas é fato que o avanço do 6º Regimento de Infantaria coincidiu com uma situação de retração geral dos alemães na Versilia.

A intensidade das reações alemãs aumentava em proporção aos avanços brasileiros. No dia 24, a 7ª Companhia do regimento recebeu entre 70 e 80 granadas de morteiro em suas tentativas de avanço, e a 8ª Companhia recebeu ordem de avançar sobre o Monte Prana. O 2º Tenente Gerson Machado Pires, militar profissional recém saído da Escola do Realengo, estava à frente do 3º pelotão da 8ª, escolhido para a missão.

Além da ordem verbal, Gerson recebeu do Capitão Los Reis, comandante da 8ª, a confirmação escrita da orientação de galgar a encosta do Monte Prana e ocupar o terreno. Pelo conteúdo da ordem, entendia-se que o itinerário de avanço estaria livre da presença inimiga.

Gerson partiu liderando seus três grupos de combate. Contava também com o apoio de uma seção de metralhadoras Browning M1917 A1, sob o comando do 3º Sargento Samuel Silva, da CPPIII. Na vanguarda do III Batalhão do 6º R.I., o grupamento prosseguiu pelas encostas das montanhas.

Depois de algumas centenas de metros, o grupo avistou dois homens de uniforme cáqui, de calças curtas, que os observavam do cume de uma elevação adjacente ao percurso do avanço brasileiro. Eles desapareceram rapidamente por detrás da crista, ao perceberem que haviam chamado a atenção dos brasileiros. A próxima coisa que o pelotão de brasileiros pôde enxergar foi uma série de objetos incandescentes avermelhados, que se cortavam o ar velozmente em sua direção.

A primeira rajada da Lurdinha atingiu um patamar de pedras frente a uma das casas do pequeno povoado de montanheses que os soldados haviam alcançado. A segunda caçou o Tenente Gerson, que teve tempo de correr para trás de uma árvore com os projéteis levantando terra bem atrás de seu rastro.

O Sargento Samuel dava ordens para assestar suas metralhadoras nos reparos, enquanto as rajadas das armas automáticas inimigas atingiam a porção de terreno ocupada pelos expedicionários. Elas podiam ser nitidamente discernidas no ar, que era cortado bruscamente por centenas de projéteis traçantes. Samuel pôde ver claramente o Tenente Gerson escapar por centímetros da rajada que o buscava, ao se abrigar atrás do grosso tronco da árvore.

Os pelotões de fuzileiros e os de petrechos pesados retraíram ao provocarem uma aguerrida reação inimiga. Embora ninguém tenha comentado abertamente, houve certo incômodo em relação ao Tenente Gerson, pois as aparências sugeriam que ele havia se desgarrado do percurso, ou deliberadamente conduzido a tropa a um ponto além do estabelecido na ordem de avanço. “Acharam que eu era maluco”, lembrou-se Gerson, ao descrever seu retorno para as posições do III Batalhão. “Queriam me mandar de volta para o Brasil, esse foi o comentário.”

Pouco depois de retornar, Gerson topou com o Major Silvino, comandante do III Batalhão do 6º R.I. O oficial estava intrigado a respeito de sua iniciativa de se deslocar além das linhas da vanguarda brasileira. Parecia estar convicto de que o comandante do grupamento destacado para o avanço tinha demonstrado falta de cuidado com sua tropa e uma disposição de correr riscos que suscitava dúvidas sobre sua sanidade mental.

Gerson de imediato percebeu que havia se tornado foco de curiosidade a respeito de sua competência para o comando. O Major Silvino inquiriu-o sobre o itinerário percorrido mas calou-se ao receber o papel emitido pelo comandante da Oitava ordenando que o grupamento avançasse por locais à frente da terra de ninguém. Silvino guardou a ordem escrita no bolso superior da túnica e deu o caso por encerrado.

Mas para o soldado Artur Napolitano, um dos fuzileiros do 3º Pelotão, a história ainda não chegara ao fim. O jovem paulistano do bairro do Ipiranga sentiu-se exausto logo ao alcançar o objetivo do avanço, e deu um jeito de se esgueirar para dentro de um estábulo assim que os pelotões se estabeleceram no terreno. Incrivelmente cansado pelos dias de ininterrupta progressão, Napolitano logo caiu em um sono pesado, indiferente aos companheiros que aguardavam por ordens adicionais para o complemento da ação. O soldado ignorou por completo os primeiros disparos das armas alemãs e a reação brasileira, e permaneceu dormindo. Sua falta só foi sentida com o recuo do grupamento à zona ocupada pelo III Batalhão.

Napolitano acordou depois de algumas horas. Saiu do estábulo e deu-se conta de que estava só. Acabou passando dois dias a pão e água, fornecidos pelos camponeses italianos que o abrigaram da tropa alemã e o avisaram sobre o momento oportuno para voltar às posições de seu batalhão. A história de Napolitano acabou virando uma espécie de folclore de guerra entre os veteranos de São Paulo, que por anos a fio repetiram alegremente a narrativa sobre a desventura do companheiro perdido atrás das linhas inimigas. Obviamente, durante aqueles dois dias, Napolitano não achou a coisa tão engraçada.

Continua…

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